PRETO E BRANCO

Abrão assistia “Casablanca”, talvez pela décima vez, quando seu filho de cinco anos entrou na sala e parou estarrecido com o que via na televisão.

“Este filme é em preto e branco??” – perguntou o garoto, como se não estivesse entendendo.

“Sim.” – respondeu o pai – e mais não disse, atento que estava às maravilhas dos diálogos entre Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

“Então a TV está estragada?”

“Não, filho, não!” – e Abrão decidiu dar uma pausa no filme; o garoto merecia uma resposta melhor, mais digna. – “Senta aqui” – e apontou a poltrona ao lado, onde o gato, sem entender nada de cinema, dormia suas dezoito horas diárias. O menino sentou-se ao lado do bichano, que apenas resmungou e continuou dormindo.

“Este é um filme muito antigo. O pai nem tinha nascido quando ele foi feito.” – o pequeno arregalou os olhos, como se isso fosse impossível, e Abrão fingiu não ter percebido. – “E naquela época não existia filme colorido. Todos os filmes eram em preto e branco. As pessoas iam no cinema assistir os filmes todos em preto e branco. E todo mundo gostava. Só depois, muito mais tarde, é que veio o cinema colorido.”

“Nooossa! Não acredito que era assim...” – exclamou o filho, acordando o gato.

“Mas era, pode acreditar. Quer ver um pouquinho, pra saber como era?”

O pequeno acedeu, mais para agradar ao pai do que por qualquer outro motivo. Abrão apertou um botão, Rick Blaine e Ilsa Lund voltaram às suas imortalidades.

O garoto assistiu aquelas cenas em preto-e-branco por dois minutos. Daí a pouco, levantou-se; parecia que queria sair sem que o pai percebesse - talvez para não magoá-lo.

“Não quer olhar o resto do filme?”

“Não, pai. Vou jogar um pouquinho de videogame.”

Abrão ainda pensou em falar ao menino do Tele-jogo de sua infância, dos palitinhos pretos que jogavam cinzentas partidas de futebol ou tênis sem nunca se mexer, mas não – o filho não acreditaria.

Bogart seguia na tela, agora conversando com Claude Rains. De repente, pensou Abrão, era como se estas falas tivessem séculos.


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