TANTO TEMPO

Amanhã talvez ele tenha coragem, este garoto tímido.

É o que ela deseja há tanto tempo, apaixonada que está desde a primeira vez que o viu. E por ser mulher, ela tem certeza que a paixão não vive só com ela: ele também a ama, percebe-se pelo olhar, pelas palavras que não consegue dizer – porque é tímido demais.

Todos os dias, ele chega na mesma hora e interrompe sem querer a conversa que ela e as duas outras moças mantêm sob os galhos generosos e carregados da macieira, enquanto comem, as três, as delícias vermelhas que a árvore lhes entrega. Para a certa distância, talvez pensando que assim elas não percebam, e depois se aproxima lentamente, pé após pé, suave, como se tivesse a intenção de não interromper a conversa que já interrompeu. Depois, posta-se próximo a elas, e aquele olhar ardente e silencioso é o máximo que lhe permite a timidez invencível. Não olha as outras meninas (apenas de relance); é apenas a ela que dedica todos os dias esta atenção envergonhada e em brasas, enquanto a moça sente-se enrubescer de alegria em meio à mordida na maçã. Nem percebe a paisagem que os rodeia: a árvore carregada de maçãs, as pessoas passeando ao redor, a elegância dos cisnes nas águas brandas do lago, o verde margeando os caminhos. Nada: seu olhar é dela. Mas todas as vezes é isso e nada mais, agonia de ambos que esperam já quase sem esperar. Ele não diz nada, porque não consegue dizer – uma palavra só talvez servisse para desatar todos os nós, pensa ela. Mas não, mas não. Ao final, ele suspira como se desistisse novamente e ela consegue perceber nos olhos do rapaz um fundo de lágrimas vivas.

Foi assim hoje, como das outras vezes.

Mas amanhã ele virá novamente, ela sabe. E talvez então tenha coragem, pensa ainda outra vez.

É esta esperança que a alimenta, nesta tela em que vive há duzentos anos, imóvel enquanto come sempre a mesma maçã, desde que aquele pintor assim a retratou, a ela e suas duas irmãs, naquela manhã luminosa de domingo em Paris.


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