OS OLHOS DAQUELE MENINO

Os olhos daquele menino brilharam quando o pai o convidou para assistir ao jogo de futebol no sábado. O pai jogava quase todos os finais de semana, nos campinhos espalhados pela cidade, em campeonatinhos de várzea e amistosos, voltando sempre sujo e feliz destas alegres peleias, como que renovado para a semana que ainda nem se iniciara. Claro que vou, pensou o pequeno – pais são tanto mais heróis quando convidam seus filhos para as aventuras.

Os olhos daquele menino se assustaram quando a mãe e o pai começaram a discutir por causa do jogo. Tudo o que conseguiu entender foi que a mãe não queria que o pai jogasse por nada deste mundo, porque o médico havia dito que podia ser muito arriscado e que não se podia brincar com isso. Bobagem, disse o pai, quem me conhece sou eu e sei me cuidar. A mãe então dissera algumas coisas que o menino não compreendera, sobre consultas e coisas assim, e a verdade é que o pai saíra batendo as portas de casa.

Os olhos daquele menino se entristeceram um pouco naquela hora, mas logo já estavam no campo de futebol e o mundo era todo novo.

Os olhos daquele menino gargalharam com as brincadeiras do pai e dos amigos enquanto colocavam os uniformes, no vestiário improvisado de várzea, e combinavam o churrasco e as cervejas para depois do jogo.

Os olhos daquele menino aplaudiram quando o pai entrou em campo e o time inteiro saudou a torcida quase inexistente – ele e mais uma dúzia de gatos pingados, inclusive o tio que não jogava mais e por isso ficara cuidando do pequeno torcedor.

Os olhos daquele menino se orgulharam todas as vezes em que o pai tocou na bola ou gritou alguma ordem aos companheiros, quando ensaiou uns piques de corrida, quando chutou aquela bola perto do gol adversário, craque indiscutível aos olhos infantes.

Os olhos daquele menino se encheram de pavor quando o pai, de repente e sem que ninguém o houvesse tocado, caiu no meio do campo e todos começaram a gritar, gritar, gritar, todo mundo ao redor daquele corpo caído, alguém berrando para chamar uma ambulância, o tio tratando de tirar o menino dali enquanto ele ainda não entendia nada mas tentava lembrar o que a mãe havia dito antes de saírem de casa, o pai caído. O pai caído.

Os olhos daquele menino nunca irão esquecer.


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