A IMPERFEIÇÃO

Tudo em equilíbrio, ele pensa, como gostaria mesmo que ficasse. A mulher no primeiro plano, vista apenas do busto para cima, as mãos cruzadas protegendo a vida, ocupando o espaço com a certeza de saber-se bela, enquanto o fundo é uma paisagem distante e esfumaçada, na qual os rios, a ponte, a curva sem destino da estrada, as montanhas, o céu são tão reais quanto qualquer sonho. Sfumato, pensa ele. A vista difusa ao fundo cumpre o seu papel de bem sustentar a luminosidade sadia da jovem que se eterniza agora. Às mãos da mulher ele emprestou o formato arredondado das bem nascidas e é com certa decisão tranquila que ela amarrota um pouco a manga comprida de seu vestido, certa de que este gesto só lhe emprestará mais vida. As vestimentas da mulher têm a mesma cor escura e algo esfumada da paisagem que a circunda, mas os delicados bordados em ouro que lhe adornam o decote cumprem o papel de contar a todos de sua elegância sem alardes. O regaço não é mais do que uma breve sombra, adivinhação e desejo, entrevista em meio à luz luxuriosa que não se sabe se mais reflete ou emana do colo sereno e liso da jovem. Os cabelos, estes parecem que poderiam mover-se ainda agora se houvesse na paisagem o menor dos ventos, mas não: seus finíssimos caracóis mais sugerem do que declaram, mais insinuam do que dizem. E finíssimo também é o véu que a jovem veste, quase invisível a quem lhe empreste o olhar apressado dos que nunca enxergam, mas pronto a alçá-la aos voos mais sublimes das maternidades. E os olhos da mulher, por sua vez, bem repousam em quem bem a olhe, e há neles uma brandura bela e agerata, pronta desde o início para atravessar séculos.

Tudo em equilíbrio, em harmonia, como ele bem desejara.

Menos o sorriso.

Há, no sorriso daquela jovem, certo mistério indesejado, uma alegria mais contida do que o necessário, a sombra de timidez que impede que se mostrem as alvuras dos dentes. Ele não queria que fosse assim: queria que o sorriso fosse inteiro, que sobre ele não restassem dúvidas. Tentou que este sorriso se abrisse mais, mas suas mãos não foram suficientes.

Que fique então assim, pensa Leonardo da Vinci, enquanto dá as últimas pinceladas na Mona Lisa.


 

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