A DAMA

Há quase trinta anos ela mantém a lenda que vive no porão e no quintal de sua casa. Uma vez por mês – ou a cada dois ou três meses, o tempo é o que menos importa – ela abre os portões e as melhores notas entram ainda mais naquela casa onde a música dorme e acorda.

Onde a música vive.

A dama preside a lenda com a beleza que lhe concede o tempo. É sempre ela quem começa tudo, sentada ao piano ou abraçada à concertina como se tivessem nascido juntas. Toca sozinha umas poucas músicas, Piaf e Brel e Gershwin e Cole Porter, depois talvez chame algum amigo para que a acompanhe noutras tantas; e então irá sentar-se na poltrona junto ao palco, a poltrona que é só dela e na qual, sem nunca ter existido qualquer aviso, ninguém mais imagina sentar. Da poltrona - com o olhar, os sorrisos juvenis e aquela voz rouca que parece ficar mais poderosa a cada dia -, ela sabe que poderia mandar em tudo; mas mais escolhe escutar do que qualquer outra coisa. De algum modo, apenas manda que quem ordene seja a sua filha. A filha anuncia que o sarau está começando e informa, sem que ninguém e nem mesmo ela acredite, que deve terminar no início da madrugada. E então todos começam a ouvir os amigos que se revezam no palco, que tocam pelo prazer e nada mais, que vão chegando e saindo com alegrias de meninos numa partida de futebol e para quem cada nota ou música é um presente sendo dado o tempo inteiro. É um burburinho, sempre, porque os amigos são muitos, dez ou cem ou duzentos – no palco, na platéia improvisada nas cadeiras e poltronas e sofás do porão, espalhados em ordem confusa pelo pátio sem que os vizinhos nunca se incomodem. Um burburinho bom, que escuta a música enquanto fala sem pressa ou maior volume, que se emociona enquanto alguém toca “As time goes by” como se Ingrid Bergman pudesse entrar daqui a pouco.

O barulho é sempre, misturado e elegante, no palco e na plateia. Todo mundo prestando a atenção carinhosa ao que tocam os músicos e ao que o outro tem a dizer – um ouvido lá, outro aqui.

Mas de repente é um silêncio. Sem que ninguém combine, todos param de falar.

É ela, a dama do jazz, quem se levanta e anda, com a leveza de quem é anjo e não sabe, em direção ao piano. Vai tocar mais uma música, talvez mais duas.


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