O CÃO, OS FRANGOS, O TEMPO

Os animais, olha só, os animais não têm mesmo a menor noção da passagem do tempo.

Este cachorro, por exemplo.

Está ali, parado como se nada mais existisse, apenas olhando com o seu desejo canino e descerebrado a máquina na qual o dono da padaria, a cada domingo, assa uma dúzia de frangos com endereço certo, para engordar o orçamento. Os frangos, luzidios e exuberantes, dão voltas e voltas leves e lentas sobre si mesmos ao tempo em que tostam suas carnes em direção a paladares pouco exigentes, enquanto o cão, como que hipnotizado por aquele movimento rotativo e imutável, simplesmente não se mexe: está parado em frente à máquina assadeira, atento apenas ao seu paraíso particular.

As pessoas vão chegando e saindo, transformando em pequenos passos a paisagem viva da padaria e das cercanias, e o cachorro nem as percebe. É provável que ele mesmo torça, sem saber, para que elas também não o percebam e o deixem ficar por ali, olhando as galinhas que assam à sua frente como em todos os domingos, numa esperança que sabe que não tem a menor razão de existir – nunca lhe sobrou qualquer pedaço, ossinho que seja. Mas não faz mal. Ele está lá, imóvel, simplesmente porque tem que ser assim: os cachorros olham enquanto as galinhas assam.

O cachorro parado, o tempo inteiro à disposição. A não ser que alguém o enxote, que lhe passe um corridão desmotivado apenas para que ele se afaste por uns minutos e volte tão logo seja possível, o cão mexerá apenas os olhos, seguindo o movimento dos frangos, e talvez – mas muito levemente, numa satisfação que nem ele mesmo percebe – o rabo, que sacode lentamente numa leveza tímida. E nada mais.

Este cão pode ficar olhando aquele espetáculo minúsculo por horas e horas impassáveis, absorto no objetivo impossível de que algum osso ou pedaço lhe seja destinado. Enquanto a padaria estiver aberta, enquanto ainda houver um frango assando na máquina, enquanto ninguém dispersá-lo a base de xingamentos ou pontapés, ele estará lá. A tarde inteira, o domingo todo, a semana.

Por isso digo que os animais não têm a menor noção do tempo.

Ele está lá olhando as galinhas assarem e quase não se mexe. Nada mais parece acontecer ao seu redor.

Sei disso porque estou olhando este cachorro há quase uma hora, fascinado com sua imobilidade atenta. E enquanto ele não se mexer, eu também não me movo.


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