DESCULPAS

Mariinha me pediu desculpas na hora em que me deixava. Perdão, disse ela, lágrimas paradas nos olhos. Sempre esta delicadeza, Mariinha, a preocupação miúda de diminuir impactos, como se o pedido de desculpas tivesse o poder de me deixar menos machucado. Mas o tempo inteiro em que estivemos juntos, estes anos em que soube que ela era a mulher da minha vida sem nunca tê-lo dito, Mariinha foi assim todos os dias. Eu, o rugido, o estrondo; ela, a suavidade e o silêncio. Eu chegando em casa com a deselegância de um abalo sísmico, interrompendo com minhas urgências barulhentas os seus tempos de brandura. Eu arrotando sem notar nos restaurantes e ela pedindo desculpas com os olhos envergonhados aos outros clientes (mas quem é que não precisa arrotar, às vezes?); eu me coçando em frente às amigas delas e ela me fazendo sinais que eram apenas pedidos (mas que culpa tenho eu se justamente naquela hora me coçavam as partes?); eu discutindo no sinal vermelho com o motorista do carro ao lado enquanto ela puxava o meu braço para que eu deixasse para lá (mas como não xingar o sujeito que havia cortado a frente do meu automóvel?); ela fechando a porta do quarto para que na sala eu escutasse o futebol num volume possível a todos os vizinhos (mas ela deveria saber que é assim que as partidas têm mais emoção). Mariinha sempre em silêncios, minudências, dando espaço ao meu espaço como se esta fosse a única possibilidade.

E agora, de repente, esta mulher me deixa.

Esperou de malas prontas que eu chegasse em meu barulho habitual, e a verdade é que quando começou a falar não cheguei a escutá-la (talvez nunca). Ela repetiu, então, que estava me deixando, imperiosa, a voz decidida de quem já decidiu. Naquela hora escutei. E de repente, pela primeira vez, não consegui gritar, não pude rugir, não soube responder. Não consegui dizer nada.

Só o que eu conseguia era chorar.

Chorar, chorar baixinho, como eu nunca havia chorado.

Perdão, ela pediu, enquanto dizia simplesmente que não agüentava mais e saía – ainda a delicadeza. E foi embora, batendo com leveza a porta. Perdão, repetiu.

Mas não, Mariinha, não. Nem quando conseguir parar de chorar eu te perdôo.


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