POR ONDE ANDARÁ RICARDO?

Olha, Dirceu, foi tudo tão rápido quanto impressionante, e a verdade é que o homem estava tão feliz que eu mesmo fiquei um pouco emocionado. O que eu sei é que eu acabara de estacionar o carro no pátio do supermercado e de repente vinha aquele abraço forte e incontido correndo em minha direção, gritando “Ricardo, Ricardo!”, como se o nome em si já fosse uma alegria. O homem me abraçou longamente no meio do estacionamento, enquanto atinava apenas em gritar o quanto estava alegre em me ver depois de tantos anos, e em sua voz parecia mesmo se escutar esta saudade. Ele então me largou por um instante, mirou-me com os olhos brilhantes de emoção, e depois – como se não soubesse bem o que fazer com tanta felicidade – me abraçou novamente. Há quanto tempo, meu amigo, há quanto tempo, ele repetia. Desde a época da faculdade, ele dizia – enquanto eu, insensível que sou, tentava, em meio a tanta efusão, lembrar aonde mesmo havíamos sido colegas. Ele por fim me largou, como se de repente houvesse se dado conta de que eu só poderia responder se conseguisse respirar, e então me perguntou o que é que eu andava fazendo, se continuava morando na mesma cidade, se estava casado ou solteiro, e quanta, quanta saudade – tudo num atropelo, interrogações que sequer pareciam esperar por respostas. Quando ele parou de falar por um instante, como se buscasse apenas o ar para renovar suas alegrias em me rever, é que me dei conta, com toda a certeza, que eu nunca antes havia visto aquele homem em minha vida. Além disso, meu nome é Antonio e eu nunca fiz faculdade. Então eu lhe expliquei isso, e disse que ele deveria estar me confundindo com outra pessoa. O homem respirou fundo e arregalou os olhos, como se naquele momento percebesse mesmo a tristeza de seu engano e que toda a sua alegria fora em vão. Pediu desculpas, envergonhado mas ainda emocionado com tudo o que dissera e perguntara há pouco, tentando explicar que eu era idêntico a um grande ex-colega de faculdade, companheiro mesmo, amigaço, de quem os rumos da vida o haviam separado. E nunca mais vi o Ricardo, me contou ele. No final, antes que eu me desse conta, abraçou-me novamente – talvez um agradecimento por eu tê-lo escutado. Depois se despediu, algo desacorçoado, e foi-se embora, enquanto eu entrava no mercado para umas comprinhas pequenas.

Só quando fui pagar, Dirceu, é que me dei conta do sumiço de minha carteira.


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