CARTA DE AMOR

Eram duas e meia da tarde e Floro Guterres bebia outro conhaque, sozinho no boteco de sempre, quando o homem se aproximou. Tinha o ar tímido, humilde, um pouco confrangido.

`O senhor que é o Poeta?” – perguntou o desconhecido.

Floro lembrou dos quatro livros de poesia publicados, a maioria ainda empilhada em caixas pobres no seu quitinete, mas que lhe concediam este título quase honroso aos olhos mais humildes, e respondeu que sim.

“É que eu queria que o senhor escrevesse uma carta de amor para a minha namorada.” – respondeu o homem, num rubor de criança. Depois adendou, com certa delicadeza – “Se possível.”

O Poeta quis explicar que não poderia, que escrever cartas era diferente de escrever poemas, mas o outro insistiu, repentinamente resoluto em sua timidez.

“Por favor, o senhor precisa escrever esta carta. É caso de vida ou morte.” – e então, definitivo, tirando da carteira surrada uma nota de cinco reais - “Eu pago.”

Floro olhou para o homem e percebeu nele a urgência apaixonada que toda a vida queria ter visto em si mesmo e nunca conseguira, e achou que tanta paixão mereceria a ajuda da poesia. E resolveu escrever a carta de amor.

Demorou uma hora e tanto escolhendo as palavras, num rascunho cheio de riscos e borrões de tinta, enquanto o homem permanecia sentado em sua frente, mudo em sua ansiedade feliz. Depois, Floro passou a carta a limpo, letra caprichosa, e leu-a ao desconhecido.

O homem não respirava, sem saber o que fazer com toda a beleza que ouvia. Quando o Poeta terminou a leitura, o outro limpou uma lágrima tranqüila dos olhos e declarou que nunca havia escutado algo tão bonito. Pegou o pedaço de papel que Floro lhe estendia e apertou-o junto ao peito, agradecido.

“E como é afinal o nome da sua namorada?” – quis saber o Poeta, curioso.

“Cecília.” – respondeu o homem. E depois de alguma indecisão. – “Só que ela ainda não é minha namorada.”

Depois sacudiu a carta, como se levantasse um troféu.

“Mas agora vai ser.”


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