VESTIDO DE NOIVA

O motivo pouco importa, mas o fato é que Zelinda estava mexendo em armários no sótão, há muito imexidos, quando encontrou, fechada há anos, a caixa de papelão em que estava guardado o seu vestido de noiva. Envolta em fita crepe, a caixinha escondida em desimportâncias, como se não guardasse qualquer memória. Mas agora, ali, era um mar de lembranças que, de repente, lhe aquentavam o coração envelhecido.

Zelinda fechou os olhos e lembrou do dia, trinta anos atrás.

Trinta anos, trinta anos. Geraldo a esperando no altar, bonito como um querubim em seu terno branco, o sorriso que prometia vidas; ela entrando na igreja amparada nos braços felizes do pai, radiante de futuros, flor de laranjeira perfumando a leveza loura dos cabelos, as lágrimas lutando em vão para não cair, o vestido – este mesmo vestido que agora repousa na caixa, três décadas mais tarde. Geraldo e ela trocando as juras de amor com a certeza de que eram para sempre, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e a festa, a festa.

Mas a vida depois da festa foi somente vida.

O querubim e a noiva foram aos poucos perdendo o encanto, os dias ficando sem graça, caindo na mesmice cotidiana dos tempos cinzas. Os trinta anos haviam feito seus estragos, as promessas que ambos faziam para si mesmos não haviam sido cumpridas e aquela paixão para sempre havia se metamorfoseado em – em quê, mesmo? O beijo, pensa Zelinda enquanto ainda olha para a caixa fechada, há quanto tempo que não? O beijo apaixonado se transformando no beijo carinhoso que foi se transformando no beijo protocolar que foi se transformando no beijo sem vontade que foi se transformando no não beijo. As refeições em silêncio ou de falas poucas, o quase desconforto quando se cruzavam no corredor, esta fraqueza em que haviam virado os dias, o que era isso mesmo e por quê? Não sei, Geraldo também não, ninguém sabe – pensa Ze linda neste inventário de miudezas tristes, enquanto, sem perceber, chora de saudade dos primeiros anos de seu casamento.

Mas o vestido, ela quer saber, curiosa, como será que está depois de tanto tempo?

Abre a caixa e descobre o vestido de noiva: é apenas um pedaço de pano cheio de traças.


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