AS ESCOLHAS

Carol recém completou dezesseis anos e escolheu apaixonar-se por Leocádio, que vai fazer vinte e cinco daqui a dois meses. Ele sequer sabe muito bem que Carol existe, e como não gosta muito do próprio nome e não há muito o que fazer quanto a isso, escolheu para si um apelido e pede para que todos o chamem de Lelê. À Carol pouco importa como chamá-lo, o que interessa é decidir se ficará investindo nesta paixão de nome estranho e antigo ou se irá se dignar a prestar alguma atenção nas indiretas desajeitadas de Eduardo, que não tem apelido e há anos parece amá-la num silêncio tímido que começou nos primeiros anos da escola. Eduardo prefere as exatas, mas não se desespera quando o assunto é humanas, enquanto Carol é bem ao contrário: matemática e química definitivamente não são com ela, mas adora port uguês e história, um pouco por vocação, outro tanto por causa das aulas do professor Marcos. Marcos escolheu ser professor por causa mesmo do talento, certamente não foi pelo salário, e além das classes na escola particular em que estudam Carol e Eduardo, também dá aulas num colégio público, não muito longe do centro, mas não o suficiente para poder ir a pé até o trabalho. Marcos então prefere ir de ônibus, deixando o carro em casa; assim, diz ele, gasta menos gasolina e economiza ao mesmo tempo o seu próprio orçamento e a vida do planeta. Demora um pouco mais, mas é uma escolha acertada, justifica ele ao cobrador do ônibus, o vesgo Tadeu, que trabalha o dia inteiro assobiando porque é tão feliz com o que faz. Escolhi fazer o que gosto, diz Tadeu enquanto interrompe o assobio e dá o troco à dona Eugênia, ando o dia inteiro passeando de ônibus, vejo gente nova o tempo todo e ainda recebo o meu dinheirinho no final do mês – e dá risada, os olhos cruzados e pequenos. Dona Eugênia não teve muitas escolhas na vida, e dá um duro danado fazendo faxinas para que Alice, sua filha, consiga estudar numa escola boa. Não descansou enquanto não conseguiu a bolsa de estudos: minha filha não precisa passar o que eu passo, quer escolher dona Eugênia. Aos dezesseis anos, Alice ainda não sabe o que vai ser – há ainda algum tempo para a escolha - , mas as boas notas gerais dos boletins deixam o peito da mãe num orgulho desmedido. Aline é colega de Carol, sentam juntas e estão na mesma turma desde o ano retrasado, e uma escolheu a outra como melhor amiga, daquelas que se contam todos os segredos. Ou quase todos, porque há sempre algo que se prefere não contar. Talvez seja por isso que Alice não tenha contado para Carol sobre os torpedos cheios de declarações que lhe manda o Lelê, o Leocádio, irmão de outra colega do colégio. Ou talvez porque não dê qualquer importânci a a eles, já que escolheu, com toda a certeza, que o amor da sua vida é o Eduardo.

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