AS COTAS

Ele é um dos noventa e três novos juízes que, há pouco mais de um mês, assumiram seus cargos numa solenidade no Tribunal de Justiça. Olha a foto oficial da cerimônia, agora: todos reunidos na escada larga do tribunal, uniformizados em seus ternos discretos e tailleurs elegantes, em seus sorrisos sérios e alegrias circunspectas. Noventa e três pessoas que, a partir de então, colocam em suas vidas as vidas de outras pessoas e que, ao mesmo tempo em que olham para a foto, olham para o seu próprio futuro com certezas e confiança.

Mas não é esta confiança hirta e coletiva que lhe chama a atenção na fotografia.

O que lhe chama a atenção na foto é que, dentre todos os noventa e três, não há nenhum negro.

Nenhum negro.

Há brancos loiros, brancos morenos, brancos ruivos, brancos com cabelos de cor indefinida, um ou outro oriental – mas nenhum negro.

Ele pensa, tenta lembrar: nos anos em que advogou, antes de passar no concurso, não se recorda de haver, alguma vez, ter feito alguma audiência presidida por um juiz negro. Os advogados negros com os quais cruzou podem ser contados nos dedos. E médico negro, quando havia consultado? Nunca. Amigos negros freqüentando as rodas bem nascidas de profissionais liberais nas quais gastava suas happy hours? Nenhum.

Mas havia negros no tribunal, ele lembra, sim, enquanto olha a foto. A ascensorista que lhe abriu um sorriso de boas vindas como se a casa fosse dela – negra. As duas senhoras da limpeza, tagarelando suas vidas mesmas enquanto escorregavam seus esfregões pelos corredores, também. E o meirinho, engalanado em sua imperial veste talar para servir cafezinho aos outros, era um mulato miúdo e entrado em anos, carapinha de cabelos brancos correndo de um lado ao outro no plenário. Sim, lembra ele, havia negros no tribunal.

Elevador privativo para uns; elevador de serviço para os outros.

E qual será a cor da justiça? – ele pensa.


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