O SOL FRIO

Ramiro olha ao redor e tudo o que enxerga é esta imensidão verde e plana, este deserto de campo cortado pela estrada fina e esburacada onde, desde que chegou, ainda não passou nenhum carro. Está parado há quase meia hora, dentro do seu próprio automóvel, escutando música e apenas esperando por Elisa, que já deve estar chegando. Ele olha o relógio, um pouco preocupado com a solidão pesada que o rodeia, e pensa que poderia estar com medo se o dia não estivesse tão claro, se já fosse noite – estas noites de lua quente que tanto o atormentam. Ela está uns minutos atrasada, mas não é isso o que preocupa Ramiro. Estacionou em frente ao posto de gasolina abandonado, conforme haviam combinado, e enquanto observa a ferrugem que carcome há anos a estrutura metálica e escuta o rangido das placas balançadas pelo vento, tenta adivinhar porque Elisa teria proposto que se encontrassem assim tão longe e tão logo. Aquele posto abandonado está há mais de cinqüenta quilômetros da cidade – a cidade onde ambos moram e se encontram furtivamente às tardes e às manhãs, nos desvãos dos quartos clandestinos das pensões e motéis, quando o marido de Elisa está viajando ou presidindo as tantas reuniões nas quais aumenta a cada dia a sua fortuna.

Elisa, ele pensa.

Elisa é um fulgor em sua vida igual, dádiva imerecida e ainda agora pouco entendida por ele: o que teria esta mulher enxergado em sua solteirice quase solitária, nos seus dias cotidianos de professor mal pago e silencioso, com nada a oferecer além de uns poemas mal feitos? Ela, casada com o homem mais poderoso da cidade; ela, para quem cada desvio era um perigo. Perguntara isso a Elisa uma vez, enquanto se beijavam como se houvessem nascido juntos, mas ela apenas suspirara, lágrima seca nos olhos, e pedira a ele que não falasse mais nisso.

Abotoa o casaco: o sol está frio. Então olha outra vez o relógio e estranha novamente o atraso. Mas Elisa terá seus motivos. E os motivos para pedir que se encontrassem neste lugar tão ermo.

De repente, ele divisa o carro ao longe. Lá vem ela, pensa ele, logo saberá a razão e a urgência deste encontro.

Mas de quem será aquele outro automóvel logo atrás?


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ERENITA

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JANICE QUANDO CHEGOU

O BILHETE

PLÁSTICO

UM DIA ENSOLARADO DE PRIMAVERA

O DIA, LÁ FORA

O VELHO ATOR

PAPAI SABE TUDO

SONHOS À VENDA

O BIGODE

PARA TI, ESTE RAMALHETE

OS OLHOS DAQUELE MENINO

CIRCULAR nº 01

MENELAU

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

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