A HISTÓRIA

Sentada à minha frente no banco da Estação Rodoviária, a mulher parece não perceber o desconforto deste assento sem encosto, destinado a esperas curtas e despedidas. Terá mais de sessenta anos, com certeza, e a sua figura não parece a de alguém que teve boas sortes na vida. Nos cabelos meio desgrenhados, tem presa uma flor de plástico; as roupas que veste parecem feitas para doidas personagens de novela – o vestido largo e sem cor, sapatos planos e desprovidos de graça, um lenço vermelho e verde envolvendo o pescoço mal cuidado. Mas não é a isso que me atento, agora: o que me chama a atenção é o pequeno ramalhete de flores meio amassadas que ela carrega em seu colo como se fossem o que há de mais valioso em sua vida. Meia dúzia de flores simples e campestres, envoltas num papel celofane amarelado e presas por um laço de fita cor-de- rosa.

E os olhos da mulher.

Na verdade, os olhos da mulher são o que há de mais importante. Eles buscam aquelas flores com uma alegria que nem se sabe, desacostumada a presentes, e que parece nem atinar direito o que fazer. A vermelhidão úmida dos olhos revela que esteve chorando ainda há pouco. Agora ela sorri, às vezes, um pouco para si mesma e outro tanto aos transeuntes que correm para seus ônibus ou parentes, mas quase nada lhes presta atenção: o olhar desta mulher é todo reservado ao buquê que lhe enfeita o colo.

Não sei se ganhou estas flores de um filho que foi ou uma irmã que vai viajar. Não sei se é com elas que espera por alguém querido. Não sei se simplesmente comprou-as por tê-las achado bonitas. Não sei se não encontrou este ramalhete atirado nalguma lata de lixo e fez dele uma companhia à solidão em que agora está. Não sei.

E pouco importa: a história não está em quem partiu ou está chegando, nem nas razões pelas quais esta mulher sentada sozinha na Estação Rodoviária agora desvela as suas pequenas flores.

A história mora nos próprios olhos da mulher, e basta a si mesma.

A história toda está sentada à minha frente, e é como agora a conto.


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