O CANÁRIO

Na loja de pássaros, comprei um canário – apenas porque queria ter a satisfação de soltá-lo e devolvê-lo ao ar e às árvores. Comprei também a gaiola, na qual já vinham acoplados dois pequenos vasilhames para água e comida, e um pacote de alpiste. Alpiste especial, a garantir o melhor canto do meu canário, disse o vendedor. Custou caro.

Com todo o cuidado, levei o animalzinho e sua gaiola até minha casa. Não queria soltá-lo logo, ali na loja, apenas para que o vendedor me achasse um doido a mais, mas sim da minha casa, a fim de aproveitar bem o momento de liberdade que estava prestes a proporcionar ao meu canário.

Cheguei em casa, enchi os recipientes de água e alpiste e coloquei a gaiola próxima à janela. Depois, com o auxílio de um prendedor, deixei aberta a portinha da pequena jaula e me afastei um pouco, para esperar que o canário voasse ao mundo livre do qual o haviam tirado.

Mas o canário não voou.

Talvez tivesse medo deste universo novo e amplo, pensei. Se eu deixasse a porta aberta por uns tempos, pensei, daí a pouco ele já estaria mais acostumado à liberdade desconhecida e saísse para o vôo que eu planejara.

De tempos em tempos eu espiava a gaiola – e o canário lá, parado.

Resolvi, então, pegar o bichinho na palma da mão e deixá-lo ir. Fiz isso – e o animal, num único bater de asas, voltou logo à segurança da gaiola, de onde ficou me olhando com uma desconfiança irritante.

Peguei-o novamente, com mais vigor – o pássaro estava assustado e tentava escapar da minha mão – e, com a leveza necessária, arremessei-o para longe de sua jaulinha. Vi-o voar com a leveza tímida e vacilante de quem parece descobrir um prazer; depois, confiança crescente a cada metro percorrido, o canário parecia observar com uma espécie de fome nova aquele vasto mundo que antes lhe era negado. Fiquei a observá-lo por alguns minutos, emocionado, enquanto ele se transformava apenas num pontinho móvel e cada vez menor na imensidão do céu. Até que, finalmente, desapareceu no horizonte. Então, ainda tocado pela cena, fui jantar.

Quando terminei a janta, o canário já havia voltado à gaiola.


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