ESPÍRITO DE NATAL

Ele caminhava sozinho e leve pelo parque naquela manhã de vinte e cinco de dezembro, ainda resplendente dos festejos da noite anterior e vestindo a camiseta amarela que ganhara de Juliane, quando avistou o homem, sentado num dos bancos nos quais se podia apreciar a paisagem e o silêncio.

Baixou instintivamente o passo, numa espécie de alarme (porque até então achava que estava sozinho), mas logo desprendeu-se desta tensão, percebendo que o homem sentado sequer o olhava. Era um senhor já grisalho e de rosto vincado, entrado em seus sessenta e tantos anos, razoavelmente bem vestido, e que transpirava uma solidão intranqüila que não parecia combinar com a placidez do parque.

Quando chegou mais próximo, percebeu que o homem chorava.

Acelerou o passo, a fim de que não se trocassem os constrangimentos – o dele, por invadir sem querer aquele choro; o do homem, por perceber que o pranto era visto por um desconhecido. Mas acelerou o passo, também, porque achou que as lágrimas de um estranho não tinham o direito de invadir a calma daquele seu dia, o espírito de leveza que o Natal lhe trazia. As lágrimas do homem eram um problema do homem. Ele, em sua caminhada tranqüila e vestindo a camiseta nova e rampante que ganhara, não tinha nada a ver com aquilo. O homem chorando era um incômodo que não precisava ter naquela manhã natalina.

Mas a verdade é que o choro solitário do velho o incomodou. Invocara ainda há pouco o espírito do Natal, e talvez este espírito estivesse justamente na decisão de voltar até o homem, sentar-se junto a ele e perguntar se precisava de ajuda. Ou, ao menos, em perguntar ao senhor porque chorava e escutá-lo em seus motivos. Afinal, alguém que chora sozinho numa manhã ensolarada de Natal, precisa estar no meio de qualquer tristeza demasiada, mais suportável se houver com quem dividi-la. Droga, pensou ele, subitamente em xeque – se não voltasse, a caminhada e o dia estariam estragados.

E justamente o dia de Natal.

Vou lá conversar com o velhinho, decidiu ele, interrompendo a caminhada.

Mas quando chegou ao banco, o homem já havia ido embora.


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