OUTRA CENA DE PRAIA

As famílias da rua moram todas em cidades diferentes e por isso, durante o ano, pouco se vêem ou falam. Meia dúzia de telefonemas, uma ou outra ida à praia nos finais de semana do inverno, e é isso. Mas o veraneio, morando todos na mesma ruazinha de Tramandaí - o veraneio passam praticamente juntos.

Os Oliveira chegaram ontem, as outras duas famílias já estavam na praia. Então é claro que já estão ali, os casais, todos na varanda boa da casa dos Oliveira, sentados nas cadeirinhas de vime, colocando os primeiros assuntos em dia, passando a cuia de mão em mão e inaugurando o copo de caipirinha que o Etevaldo comprou numa banca perto de Osório. Falam de tudo – vida, futebol, fofocas, carestia, projetos – mas sem se preocupar muito com nada. A hora é de férias.

À hora em que elas, por qualquer razão, foram para dentro de casa – preparar talvez alguma janta ou petisco, olhar os móveis novos do quarto, conversar assuntos delas, sei lá -, os maridos, é claro, passaram a falar de mulher. Também sem muita seriedade, já com alguma nostalgia, sabendo todos de suas barriguinhas cinquentonas, e principalmente cuidando para não serem escutados lá de dentro da casa (onde talvez elas estejam falando da beleza dos meninos na beira da praia). Enfim, falam em ritmo de férias.

Até que, na esquina, apontam duas moças, uma mais bonita do que a outra, e o Betinazzi não se contém:

“Olha só que maravilha! Que coisa linda! Nossa mãe!...”

Os outros dois também acompanham o andar das meninas, que se aproximam, e o estranho é que nenhum deles secunda o comentário. Até que as garotas entram no pátio e a mais alta - filha do Oliveira, e que crescera uma enormidade de um ano para o outro -, cumprimenta a todos com seu sorriso adolescente.

“Oi, tios, tudo bem?” – e entram em casa, as duas – certamente tem mais a fazer.

Os homens ficam ainda num silêncio constrangido, durante uns segundos, até que o Betinazzi atina em dizer:

“Eu falei da outra.”

Os outros concordam com uns sorrisos amarelos e, durante uns segundos, novamente ninguém diz nada. Até que o dono da casa olha para aquele céu limpíssimo e diz, sabe-se lá de onde:

“Acho que amanhã chove.”

E eles começam a falar do tempo, agarrando-se ao clima como se este fosse um assunto urgente. Mas alguma coisa se quebrou ainda há pouco.


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