FAZER UM CAFÉ

“Vou te fazer um café.” – ela disse, e sua voz era tranqüila, limpa, clara. Mas era também uma voz que não respondia nada.

Eu vencera os meus fantasmas de quinze anos e, agora há pouco, declarara o meu amor por aquela mulher. Aquela mulher que recém havia se divorciado e de quem, à falta de melhor chance, eu fora o melhor amigo na última década. Aquela mulher que, escutando todo o meu discurso-desabafo sem dizer nada, depois apenas me respondera que ia me preparar um café.

Não é justo, eu sei (eu disse), desarticular vidas ajustadas em anos. Mas é que são tantos tempos de sofrimento solitário e apaixonado, noites insanas de não dormir, dias e dias na esperança longa de me curar deste mal sem nunca conseguir, a cada manhã o seu nome repetido ainda antes de abrir os olhos. E depois dos olhos abertos, o vazio. O vazio enganado com namoradas várias e rápidas, tentando encontrá-la sempre e em todas – o que não me ajudava, porque só me acentuava a falta desta mulher inteira. Eu me desesperava em silêncio, morria em segredo todas as noites, acordava em ânsias todas as manhãs. Quinze anos, quinze anos sendo o melhor amigo da mulher que eu amava. No início, eu era forte e sustentava sozinho este pequeno desespero, acreditando que um dia iria passar, que eu encontraria alguém justamente igual a ela, que se apaixonaria por mim e minha vida teria vida de novo. Mas este dia não chegou e, quinze anos depois, já não sou mais aquele jovem. Os velhos enfraquecem o corpo, os velhos têm a alma gasta. Este segredo triste pesando cada vez mais. E agora, quando esta mulher verdadeiramente se separou, sabendo eu que não há mais volta – porque sempre fui o seu melhor amigo, sei tudo sobre ela – agora então eu precisava contar. Morreria se não dissesse. Ou enlouqueceria. Ou então morreria doido. Ainda que eu saiba que agora não há mais volta: nossa amizade, como sempre foi, não pode mais continuar.

E então contei.


“Vou te fazer um café.” – ela repete, e salta para a cozinha antes que eu diga que não quero.

Espero dois minutos, para dar-lhe algum fôlego e recuperar o meu, também para que possamos escutar um pouco de nossas solidões. Só então vou à cozinha.

Em frente à chaleira onde esquenta a água para o café, ela chora.


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