FIM DE SEMANA

A porta abriu logo depois dele tocar a campainha, como se Alice estivesse apenas esperando o timbre, e ela surgiu (parecia mais bonita do que antes).

“Oi.” – ambos se cumprimentaram e depois ficaram uns segundos num silêncio constrangido, sem saber como prosseguir aquela saudação – dois beijos na face, qualquer aperto de mão, um abraço curto, nada. E então foi mesmo nada, sem jeito, desacostumados.

“Vim buscar o Guilherme.” – ele explicou, como se fosse necessário – “Ele já está pronto?”

“Quase.” – respondeu Alice, num semi-sorriso. – “Sabe como é este menino. Enrolado como o pai...”

Ele também sorriu, decidindo que aquilo não era provocação - apenas uma brincadeira.

“Senta.” – disse ela, apontando o sofá. Ele então sentou-se com certa solenidade, formal, no mesmo lugar onde, ainda seis meses atrás, se escarrapachava de pijamas e sem camisas. Olhou ao redor, sem saber o que dizer.

“Está bonito o apartamento.” – atinou em comentar.

“Obrigada.” – respondeu ela, um pouco estranhada; não havia mudado nada desde que tinham se separado.

Depois caíram em novo silêncio. Sempre uns poucos segundos, não mais – mas notáveis, incômodos. Alice então ofereceu café, um pouco para dizer algo e outro tanto para livrar-se daquela mutez indo à cozinha - mas ele não quis.

“Ando tomando muito café.” – explicou.

Então o pequeno apareceu com sua mochilinha e abraçou o pai como se não o visse há séculos (talvez fosse). O homem respondeu ao abraço do filho com as forças que lhe sobravam da solidão, enquanto Alice observava a cena e tentava não se emocionar. Quando o menino desabraçou o pai, correu à mãe para se despedir.

“O Guilherme precisa estar em casa amanhã no começo da noite.” – disse ela. Depois, para que não parecesse uma ordem – “É que ele tem que se preparar para a semana.”

“Sim, eu sei.” – respondeu o pai.

Então se despediram sem nenhum toque. E quando Alice fechou a porta, sozinha pela primeira vez desde a audiência, aquele apartamento lhe pareceu grande como nunca.


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