CONCERTO

Sobraçando a maleta do violino com o mesmo cuidado com que carregaria um filho pequeno, Emilio andava distraído pela rua depois do ensaio da orquestra, repassando na memória as partes mais difíceis do concerto para o qual se preparavam. Atravessava uma praça com pouca urgência, desatento a qualquer outra coisa que não fosse a música que ainda escutava; por isso, só na segunda chamada escutou a voz do garoto.

“Tio, o que é isso neste pacote?”

Emilio custou um instante a perceber que o pacote era a valise do violino, e a pergunta foi tão inesperada e tão cheia de infância, que ele nem atinou em dizer que não tinha tempo para responder. E os olhos curiosos do menino.

“Um violino.”

“E o que que é um violino?”

“Um instrumento de tocar música.” – respondeu Emilio, simples.

“Então toca uma música pra mim, tio?”

O violinista se surpreendeu um pouco com o pedido, e o mais fácil seria dizer que não, que estava com pressa, que tinha um compromisso. Mas não, não havia nada a impedi-lo de tocar. E o menino pedira.

Sob o olhar encantado daquele garoto repentinamente imóvel, Emilio depositou a valise sobre um banco e dela tirou o violino e seu arco. Empertigou-se, como se estivesse numa sala de concertos, e fechou os olhos.

E então começou a tocar.

Tocou três músicas curtas e dolentes, repentinamente esquecido do mundo e de tudo, vivendo num universo único, olhos sempre fechados. Quase dez minutos sem pensar em nada além da música que então tocava - porque tudo aquilo era muito.

Quando voltou ao mundo, depois da terceira peça, percebeu que o menino à sua frente também estava de olhos fechados.

E dos olhos do garoto escorria uma lágrima.


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