SCLIAR

Ele estava terminando de ler “Eu vos abraço, milhões”, do Moacyr Scliar, com aquela mistura de encantamento e tristeza que sempre acompanha a leitura dos belos livros. O encantamento, pela própria intensidade da história, a beleza tranqüila da escritura; a tristeza, porque cada página lida se transformava em uma página a menos para ler. É difícil terminar de ler um bom livro.

Ainda mais porque, na mesma hora em que ele lia o livro, Moacyr Scliar enfrentava a proximidade da morte numa cama de hospital, por causa de um AVC, estas estupidezes que não deveriam, mas ainda acontecem com qualquer um - mesmo os médicos e imortais. E inconsciente, (talvez) sem saber, Scliar recebia os abraços dos milhares, milhões de leitores e não-leitores, que desta forma lhe retribuíam e agradeciam um pouco por todo o seu talento e generosidade.

Generosidade, sim – ele sabia. Porque havia tido a oportunidade de conversar algumas vezes com o escritor, e era impressionante a grandeza de sua humildade. Publicado e lido em dezenas de línguas, poderia escolher convites, e parecia que era isso mesmo o que fazia: escolhia todos. Acudia com a mesma vontade ao convite para palestra numa universidade européia e ao chamamento de uma feirinha do livro em Cafundó do Judas. E levava para suas conversas uma simplicidade que apenas os mais sábios conseguem ter.

Mas eu que não fique pensando no Scliar, decidiu ele, porque senão não me atento ao merecimento do livro.

E então seguiu lendo, sem parar, em alegria e tristeza, as páginas finais da história de Valdo, o pequeno comunista ateu do início do século passado, que sai de Santo Ângelo para o Rio de Janeiro para encontrar com o líder partidário Astrojildo Pereira (a quem, na verdade, nunca encontrará) e acaba trabalhando como operário na construção do Cristo Redentor. A elegância da ironia: o ateu Valdo, sob as ordens de um arquiteto originalmente judeu, construindo a maior estátua católica do mundo.

Quando terminou o livro, achou que daqui a uns tempos poderia lê-lo de novo. E guardou para si a singeleza enorme da última frase: “como é bom viver.”

Como é bom viver, pensou ele, enquanto fechava o livro – esta frase pode ser nada e também ser um tratado.

Quando acordou, no dia seguinte, o rádio noticiava a morte de Moacyr Scliar.


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