O ARTESÃO

Fossem mais baratos, e utilizaria diamantes. Mas são pedras impossíveis; talvez por esta razão ninguém mais as use. Os cristais não ficam muito abaixo, não cabem em sua aposentadoria. Assim, ele escolhe os pedaços de vidro mais puros que encontra, e quando o brilho do espelho se gemina à pupila de seus olhos, sabe que é naquele em que trabalhará. Grandes ou pequenos, pouco importa o tamanho – deles extrairá apenas uma secção mínima, a mais brilhante, e naqueles centímetros vai exercitar a arte que, acredita, consegue tornar sua vida diferente e mais importante que as comuns.

Quando ao final da manhã chega em casa, trazendo envolto em cuidados aquele caco de vidro encontrado na calçada ou na lata de lixo, a mulher sabe que ele apenas responderá ao cumprimento e não dirá nenhuma outra palavra. Vai direto para a oficina, espaço íntimo que mantém há mais de quarenta anos, desde que decidiu sua missão, e de lá não retorna antes que esteja tudo terminado.

Não é um trabalho que lhe exija as forças que já não possui. É, isso sim, um exercício de leveza e paciência: são horas e horas em que sua mão não pode errar.

Ele limpa o pedaço de vidro até que esteja impecável, que não se encontre em sua superfície nenhuma marca de pó ou tempo. Depois, examina-o com a lupa, estuda todo o brilho ainda há pouco recolhido, e dali sairá com o fragmento que considere mais puro, cristalino. É ali que trabalhará, o resto servirá ao lixo. Corta o vidro com a lâmina fina cuja certeza tem décadas, depois apanha a lixa e é neste trabalho miúdo que a tarde o encontrará. Lixa o vidro com vagar, esmero de quem constrói algo único, e aos poucos, sem qualquer pressa, a forma começa a aparecer. As pontas nem sempre são iguais, por vezes a graça do artista fará com que uma seja maior que a outra, mas não há quem consiga enxergar ali qualquer desequilíbrio. Quando as pontas estão todas formadas, é porque o coração já está pronto. É necessária uma nova limpeza, a fim de extrair todo o pó de vidro que sobre naquela pecinha fina recém construída. Depois sopesa-a, para ter a certeza de que não é pesada nem leve em demasia. Examina-a com o olhar e a ponta dos dedos, e só quando não consegue perceber nela nenhuma imperfeição que não seja proposital, é que vai estar pronta.

Então, retira da caixa o estilingue e deposita cuidadosamente no couro do extensor o vidro recém nascido de suas mãos. Da janela da oficina arremessa-a o mais alto que pode, e acompanha a subida até que seus olhos cansados já não enxerguem mais nada.

À noite, olha para cima e ela está lá. Ele apenas sorri e se acha importante. Alguns passam a vida plantando árvores, outros ensinando a ler. Mas são poucos os que, como ele, semeiam as estrelas no céu.


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