SÃO LOURENÇO

Não sabe se acordou ou ainda está dormindo e começando a sonhar um sonho ruim. Deitara um pouco mais tarde que o normal, comemorando a vitória de seu time, parte da vizinhança fogueteando a outra, e agora todo o estrépito poderia parecer-se a uma repetição da festa, mas não. Abre os olhos, pisca uma, duas vezes; a mulher ao lado faz o mesmo, atônita sem saber. No quarto ao lado, surge do meio do sono o lamento estranhado do filho. Tudo isso nuns segundos que, de tão rápidos, nem se contam. Mas o som. O som agora é urgente, não há festa, nem cornetas e nem estouro de foguetes. O som parece ser – mas não pode, ele pensa, enquanto ainda pisca sem saber se já acordou – o de um alto-falante gritando para que todos saiam de casa, voz imperativa e metálica que repete e repete o comando, como se assim se fortalecesse. Que todos deixem suas casas, manda a voz. Ele sabe que está acordado, passou-se outro segundo, suficiente para descobrir que o pesadelo não está acontecendo em sonhos. Então se ouvem as batidas na porta, como se não se importassem em derrubá-la, e o comando é o mesmo: saiam agora de suas casas. Em meio ao desencontro em que ainda se encontra, ele já consegue perceber os berros de apavorada pressa da vizinhança, o grito assustado da esposa, o choro indefeso do moleque no quarto ao lado, e então pula da cama. A voz grita outra vez a mesma ordem, já mais distante, parece que precisa acordar todas as ruas do bairro com o seu grito: saiam agora de suas casas, para a sua segurança. Ele então atina em vestir as calças, num átimo a mulher já está vestida e traz no colo o filho que, apenas pelo calor dos braços da mãe, diminuiu o choro em que se acordara. Ele pega a mão da esposa e dessa vez é ele quem ordena que saiam, não sabe bem porque mas tem a certeza imediata de que deve ser assim, e nem documentos, nem papeis, nem fotografias, nem bem-quereres, nem as roupinhas do menino, nem nada: saem sozinhos, eles mesmos e seus pavores. Quando chegam à rua, já estão os vizinhos disparando seus passos perdidos, e então correm todos na mesma direção, seguindo sem saber a voz metálica do alto-falante e os policiais que batem com força nas portas das casas, acordando em medos a madrugada.

Olham para trás quando acham que é possível. Lá atrás, rumor líquido que se devolve às mãos humanas, vem a água, imperiosa e invencível, invadindo as casas e as ruas, as portas e as janelas, as memórias e as vidas.


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