LUCIA?

Ambos tomavam o café da manhã num silêncio comum quando Rosane perguntou a Herivelto, como se fosse nada:

“Quem é a Lucia?”

Ele levava à boca uma torrada com geleia de morango e pareceu não entender a indagação.

“Lucia?” Que Lucia?”

“Eu é que te pergunto. Quem é a Lucia?” – insistiu Rosane.

“Sei lá quem é a Lucia.” – respondeu Herivelto, ainda distraído, mastigando a torrada. Depois adendou – “Tem uma Lucia lá na firma. Começou a trabalhar mês passado, acho que é a única Lucia que eu conheço. Quer dizer, nem sei se é mesmo Lucia o nome dela.” – então parou – “Mas por que esta curiosidade?”

“Porque duas vezes, no sono, esta noite, o senhor disse ´para, Lucia, não faz isso.´ - Herivelto sabia que quando Rosane o chamava de senhor, a situação estava ruim para o seu lado. – “E eu gostaria muito de saber o que é que dona Lucia estava fazendo e porque o senhor a mandou parar...”

Herivelto tentou lembrar por um instante. A verdade é que não tinha a menor idéia do que sonhara a noite passada, muito menos sabia de qualquer Lucia aparecendo em seu sonho.

“Não sei.” – respondeu ele, simplesmente, sabendo que resposta assim tão singela não iria adiantar nada.

“Pois o senhor descubra, seu Herivelto! O senhor descubra o que é que esta tal de Lucia tinha que parar de fazer no meio do seu sonho.” – e ela enfatizou o ´seu´ - “Ou então quem vai parar de fazer algumas coisas sou eu, e acho que o senhor não vai gostar disso. Ouviu bem? Para o seu bem, melhor descobrir o que aconteceu neste seu sonho vagabundo.” – e o sonho do marido já era vagabundo, nesta hora.

E Rosane levantou-se da mesa do café, imperiosa, como se já houvesse dito tudo e nada mais fosse necessário. Agora iria terminar de se vestir para o trabalho; Herivelto que lembrasse da resposta. E que a resposta fosse boa.

Ele apenas permaneceu olhando a mulher que se afastava em direção ao quarto, fúria inútil e injusta. Depois, tentou lembrar se poderia ser mesmo a colega aparecendo em seu sonho e se o nome dela era Lucia.

Colega essa, aliás – pensou Herivelto – que até era bem bonitinha.


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