O HORROR

Ele recém havia se instalado em frente ao computador, decidido a escrever um pequeno conto de terror para o jornal que semanalmente publicava suas histórias, quando a televisão começou a trazer os detalhes do seqüestro na escola russa. Naquele instante, transmitido ao vivo para o mundo inteiro – ouviam-se inacreditáveis rajadas de metralhadora -, o exército russo invadia a escola onde terroristas mantinham em seu poder insano mais de mil reféns, a maioria crianças. A operação não durou muito tempo e, ao final, havia centenas de mortos espalhados por aquela paisagem aberta. Entre estes muitos mortos, muitas crianças.

Crianças.

Crianças mortas sem saber porquê, crianças mortas sem tempo para descobrir se seriam felizes, crianças mortas com maçãs nas mochilinhas, crianças mortas com os cadernos ainda em branco, crianças mortas antes de começar a vida. Crianças mortas a tiros disparados a esmo, crianças mortas na queda de um telhado, crianças mortas na debandada do desespero, crianças mortas.

Crianças.

Crianças que vão à escola não estão fazendo revolução, crianças que vão à escola não sabem das brigas dos pais, crianças que vão à escola não sabem das brigas dos países. Crianças que vão à escola só querem estudar, brincar no recreio e voltar para casa, sujos de pó e felicidade. Crianças que vão à escola não querem voltar para casa sujos de sangue.

Quando percebeu, o escritor chorava. As lágrimas haviam começado a escorrer por si, donas de sua própria vontade, enquanto seus olhos ainda teimavam em assistir a notícia. Estômago apertado, o ar faltante e o coração feito um trapo, ele não atinava em sair da frente da televisão e, por mais que pensasse, não havia palavras que bastassem para dar o tamanho àquela monstruosidade.

Porque crianças são para viver, pensou. Em qualquer lugar do mundo, crianças são para viver.

Quando o noticiário terminou, banhado em sangue e seco de palavras, ele achou que naquele momento não era possível escrever nada: não há lugar para um continho de terror quando o horror da vida ultrapassa toda a imaginação.

Nota do autor: Escrevo o meu texto para o jornal e para esta página às quintas-feiras. Na última quinta, não consegui escrever nada. Por isso, republico este conto, publicado originalmente em 12 de setembro de 2004, no jornal ABCDomingo – ele diz bem a tristeza.


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