AS QUATRO

Elas jogam cartas todas as quintas-feiras à tarde, e é sempre neste dia que melhor exercitam a amizade que une as quatro, como se fossem irmãs, há quase cinqüenta anos. Andam todas um pouco além dos setenta, embora duas delas não revelem a idade. Cada semana, o encontro é na casa de uma, e é bonito de vê-las em suas alegrias juvenis quando se encontram e se abraçam como se há décadas não se enxergassem. São risadas de crianças, mesmo, parecidas às dos netos que todas tem.

As quatro trazem guloseimas para beliscar durante as partidas, e então a mesa da cozinha fica igual a um aniversário de criança: são bolos fatiados, refrigerante, glaceados, docinhos, salgados, tortas, biscoitos com recheio, pizzas caseiras, tudo que engorde. Há alguns anos, a mais nova trouxe algumas ameixas importadas, lindas e louçãs, mas a vaia de todas as outras foi tão grande que ninguém mais, depois disso, se aventurou a levar frutas para os encontros. De vez em quando – mas nem sempre – alguma carrega à festa uma garrafa de vinho ou licor, que todas bebericam sem maior interesse ou fingindo escândalo com o tanto que a outra está bebendo.

Jogam em duplas, todas as semanas, e revezam-se nas parcerias – mas a verdade é que se conhecem tanto, sabem tão bem os segredos e manias umas das outras, que pouco importa quem está jogando com quem. E o resultado do jogo também é o de menos; ainda que apostem uns tostões a cada semana, todas sabem que este dinheirinho comum servirá apenas para que a ganhadora compre outro pacote de biscoitos para a quinta-feira seguinte.

Mas conversam. E riem. Chegam a esquecer-se do jogo, enquanto uma conta a última travessura do neto e outra, viúva, fala dos olhares compridos que vem recebendo do vizinho solteirão. Até fofocam um pouco, reclamam outro tanto dos filhos e das filhas, sentem as dores dos braços e as pernas cansadas. Mas isso sem exagero, porque não é para isso que estão ali todas as semanas, e no instante seguinte já estão elogiando filhos e filhas e gabando-se todas das fantásticas saúdes que tem. E quando a mais velha resolve contar a história incrível que lhe aconteceu quando esteve em Paris, todas as outras fingem não conhecer o episódio e tem também a delicadeza de não lembrar à amiga que, na verdade, ela nunca foi à França e a história que irá contar pela centésima vez é parte de um filme que assistiu muitos anos atrás. Enquanto isso, disfarçadamente, a mais nova tenta olhar as cartas da amiga ao lado.

Os jogos vão até as oito da noite e nem sempre elas se dão ao trabalho de conferir os pontos.

O que importa mesmo é gostar-se. E nisso todas são campeãs.


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