NESTA ÉPOCA

Todos os anos, por esta época, Genoveva fica um pouco estranha. Não é uma estranheza escancarada, não sai de sua boca um pio de reclamação. É, antes, uma melancolia que se percebe apenas nos detalhes – o olhar mais tristonho do que nos outros tempos, certa angústia no andar, os movimentos mais lentos e desinteressados, a distância nos modos e no porte, uma inatividade, o alheamento que parece sem motivo.

Mas não é.

O motivo de tudo isso é a Páscoa.

Mais precisamente, o coelho da Páscoa. O coelhinho.

Ainda que não reclame diretamente, ela permanece num silêncio que por si já é um protesto. O fato é que Genoveva acha que o tal coelho da Páscoa é uma farsa. Uma injustiça imposta pelo marketing e pelas leis do mercado, que só se importa com vendas e nada mais. Isso porque, contra todo o bom senso e a – também boa – obviedade, alguém foi lá e inventou o coelho como símbolo da Páscoa, criando nas próprias criancinhas, a cada ano que passa, uma certa confusão alegre. Os pequenos, enquanto esperam ansiosamente o domingo para a chegada dos seus ninhos e ovos de chocolate, pensam e não conseguem entender como e de que forma o coelhinho bota aqueles ovos. Durante o ano inteiro, pensam as crianças, quem bota ovo é a galinha – aquele ovo meio pegajoso, amarel o e branco, que os pais às vezes os forçam a comer. Mas na Páscoa, não: como um milagre mais ou menos inexplicado, quem aparece com os ovos, em sua versão chocolate, é este inusitado coelho, deixando nas casas as marcas de suas pegadas de farinha.

O ano inteiro, as galinhas; na doce Páscoa, o coelhinho.

Nenhum coelho jamais botou ovos, nenhum coelho jamais cantou de dor em seu ninho de palhas - mas a fama e a glória desta época é toda para eles. Porque, em vez de ser uma ave gordota e desengonçada que vive bicando insetos sobre terrenos cheios de titica, é um animalzinho peludo e fofinho, que vive saltitando pelos campos, pura ternura. Imagem fácil de vender, pois. “Coelhinho da Páscoa/que trazes pra mim? Um ovo, dois ovos/ Três ovos assim.” – veja só, até as cantigas pascoalinas, inocentemente entoadas há décadas, colaboram para esta injustiça.

Genoveva se incomoda com isso, eu sei. Assim, nesta época de Páscoa e com uma força de vontade que chega a ser maior que as próprias leis da Natureza, enquanto todas as outras galinhas do meu terreiro seguem em suas vidinhas normais, ela não põe um único ovo.


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