SAPATEIRO

Há mais de quarenta anos, estas mãos envolvem em arte o seu cotidiano, a cada dia aprendendo mesmo sem notar, mesmo sem saber o quanto sabem. São mãos calosas e enrugadas, e quem olhá-las com mais atenção perceberá que parte daqueles traços que a sulcam em todas as direções, formando uma espécie de mapa de vários rumos, não são mais do que marcas de pregos escapados, lâminas de fios fantasmas, marteladas no meio do cansaço. Mas nada que o assuste: a vida deve mesmo ter marcas, e estes riscos todos tem algo a contar.

Quando chega, enquanto a manhã ainda se aquenta em seus primeiros calores, bota a aquecer o café que o acompanhará em mais este dia. Depois, veste o guarda-pó azul claro em que fizeram morada as manchas de cola e senta-se no banquinho que há dezenas de anos é o mesmo incômodo e lhe aguilhoa pouco a pouco e silenciosamente as costas. Afia a faca de corte no pequeno charuto de pedra, igual a ontem e amanhã e sempre, e pensa um pouco na vida enquanto espera que o café esteja pronto. Pouco se concede a pensar, porque logo o negror líquido da cafeteira lhe dá o sinal de que, café passado, é hora de começar.

E então começa. O trabalho como vocação e princípio, grandeza miúda e cotidiana.

As mãos tocam o couro como se tocassem a própria vida (talvez sim). Batem miúdo, preguinhos presos pelos lábios, cortam com esta lâmina fina cujo fio é o mesmo há décadas, colam asperezas, buscam a imperfeição e tentam mitigá-la em golpes breves, transformam em lisuras os pequenos montes do tempo. (O tempo – se desse a si mesmo a chance de pensar, o que pensaria?). Aos poucos, em minudências, o lavor e o molde pacienciosos fazem com que a tarefa se cumpra. Está ali o sapato, novo ou refeito, revigorado ou recém nascido – e os seus olhos, tão acostumados, de alguma maneira ainda se emocionam quando deposita na estante os calçados prontos, para que ali eles esperem por seu dono.
E então recomeça. Até o fim do dia.

Sempre o mesmo cotidiano, estas mãos. Mas todos os dias se reinventando. Os movimentos iguais de amanhã também serão diferentes.

Porque estas mãos fazem sapatos.

E estas mãos fazem a história.


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