ALI, LOGO AO LADO, AGORA

É noite, e Inês se emociona e se revolta enquanto, na televisão, assiste uma reportagem sobre maus tratos a crianças.

Três casas adiante, a criança (melhor deixá-la sem nome), acorda os seus dois anos de infância recém iniciada com que dormia no sofá da sala, e chora porque percebe que fez xixi, ela que não faz muito ainda usava fraldas. A mãe não está, porque trabalha à noite, e o padrasto – o padrasto detesta que qualquer choro infantil o incomode enquanto bebe.

Frente à TV, Inês está indignada com as barbaridades que a reportagem lhe mostra. Escuta o que lhe diz o programa.

Copo na mão, o padrasto grita à criança que cale a boca, que não lhe encha o saco, e este berro tem o poder fácil de assustar ainda mais aquele coraçãozinho infante. O padrasto então sacode a criança, a fim de fazê-la parar de uma vez por todas com aquele choro e deixá-lo em paz, e naquela hora descobre a umidade que ainda escorre pelas perninhas finas.

As histórias da reportagem, chora Inês – que monstros podem ter tamanha covardia? Quem faz isso?

O padrasto não acredita naquela agüinha fina em suas mãos. Dá um safanão na criança, e esta então grita um choro que é o pedido de socorro que ainda não sabe fazer. As lágrimas enfurecem ainda mais o homem, que explode em fúrias e sacode novamente aquele corpinho de dois anos como se brigasse com um adulto (não, um adulto se defenderia). Depois, joga a criança sobre o sofá molhado, pouco importando como ela aterrissa, e então começa a bater de verdade. Baterá enquanto tiver forças em seus braços bêbados ou até que a criança pare de chorar. Até que a criança pare de chorar – de qualquer jeito.

*****

Na manhã seguinte, Inês ainda está tão abalada que esquece de responder ao cumprimento da vizinha que chega do serviço. No trabalho, se emociona enquanto conversa com os colegas sobre estas atrocidades que acontecem. Quem pode fazer estas monstruosidades? - repete ela, aterrada.

Na mesma hora, o padrasto explica à mãe da criança como aquela desastrada havia caído do sofá.


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