A ARTE DA SEDUÇÃO

Gilvandro chegou um pouco estranho no trabalho, com o jeito meio desacorçoado de quem não sabe o que fazer. Os colegas logo perceberam, ele que chegava sempre às risadas, gritando piadas novas, sacudindo as pessoas e estremecendo as salas com seu corpanzil de gordo feliz - e hoje então naquela miudeza, aquela quase tristezinha que não combinava nada com ele. Pergunta, não pergunta, Teodoro foi e perguntou.

"Que é que há contigo, rapaz? Que tristeza é essa?"

Gilvandro arregalou os olhos em direção ao amigo - como é que havia percebido? - e achou melhor abrir o jogo.

"Culpa da Marilene." - respondeu, num sorriso tímido que não combinava com aquele jeito bronco. - "Ela disse que não aguenta mais a minha falta de romantismo. Desculpa falar assim, esta bobagem de romantismo, mas foi a palavra que ela usou. Que eu sou tosco, que não presto atenção nela, que não faço um carinho, uma delicadeza, uma coisa assim. E que assim, uma hora dessas ela vai embora." - parou um pouco, depois continuou - "Mas o que é que a gente pode fazer? Ela tá casada comigo há mais de dez anos" (Teodoro sabia que eram oito) "e sabe que eu sempre fui assim. É o meu jeito, bronco mesmo. Mas eu gosto dela, a Marilene é a mulher da minha vida!" - parou novamente e, não o conhecesse, Teodoro poderia até adivinhar uma lágrima no fundo do olho - "O que é que eu faço, Teodoro?"

O amigo sorriu, compreensivo - o sorriso dos que sabem.

"Simples, simples. É só dar mais atenção pra ela. E não custa nada, é só se concentrar. Um sorriso, um comentário sobre o corte de cabelo, dizer que ela está mais magra, abrir a porta do carro, oferecer o casaco quando ela está com frio, sair para jantar de vez em quando, um presentinho fora do Natal ou do aniversário. Pode até parecer difícil, mas é simples. E só se esforçar um pouco. E deixa de bobagem porque tu e a Marilene não vão se separar. É como eu disse: é só se esforçar um pouco."

Era isso mesmo: esforçar-se um pouco, pensou Gilvandro - como se algo, de repente, se iluminasse dentro dele. E vou começar hoje mesmo, decidiu. Vou levar um presente para a Marilene - e nem é aniversário dela.

E voltou renovado ao trabalho, tranquilo e decidido. À noitinha, antes de voltar para casa, passaria no mercado e compraria o varal portátil que a mulher tanto estava querendo.


Outros Contos


A CAMISINHA

2014

O HOMEM NO BAR

AQUELE CLIMA DE INDECISÃO

MULTICORES

O ACASO

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

OS CINCO SUPER HERÓIS

QUE SEJA ASSIM

OS MILAGRES SIMPLES

OS OLHOS AZUIS, AZUIS

PRESENTE

ESTE BARULHO

OFERENDA

O ABRAÇO, AI, O ABRAÇO

PROMESSAS DE ANO NOVO

AQUELE SILÊNCIO

O BARBEIRO

A VIDA É SIMPLES

O CALOR

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais