Nem tão breve: coluna de contos semanal de Henrique Schneider faz aniversário de 10 anos
Escritor publica textos de ficção em jornal de notícias, todos os domingos, há uma década. Coluna já rendeu projeto de leituras, curta-metragem e livro.
   
2013 é um ano especial para o escritor Henrique Schneider – é quando sua coluna Vida Breve completa 10 anos de existência: há uma década, seus contos são publicados semanalmente no jornal ABC Domingo, do Grupo Sinos.
Em 2003, a ideia de publicar contos de ficção inéditos para um jornal de circulação regional era um tanto quanto inovadora. “Eu tinha escritos alguns contos pequenos, breves, que tinham uma espécie de formato possível para jornal”, relembra Schneider, agora com 49 anos. “Pensava: ‘por que não há contos em jornais? Uma janelinha de ficção naquele espaço...”

O editor do ABC Domingo, na época, era Demétrio Soster. “Levei a ideia para ele. Achei que seria inovador, diferente. Ele ficou com alguns contos e logo me ligou... E o interessante é que eu nunca imaginei que duraria 10 anos, que teria tanto fôlego.”

SEM FALHAS - Em uma década de coluna, Schneider não falhou nenhuma vez. “Escrevi contos para todos os domingos, e só aconteceu de não ser publicado uma vez, por um problema de impressão”, orgulha-se. “Passar de 500 contos é uma grande marca.”

Inspiração? Não, trabalho


Que os contos são publicados todo domingo, é lógico. O curioso é que Henrique efetivamente escreve um por semana. “Não tenho contos de gaveta”, esclarece. “Hoje [era uma quarta-feira], não faço a menor ideia do que vou escrever para domingo.”

O escritor cita Pablo Picasso quando questionado sobre o que o inspira a escrever semanalmente há uma década. “[Picasso] dizia que sempre que a inspiração o encontrou, o encontrou trabalhando. Eu não posso desperdiçar o olhar. Vejo cenas e penso que pode render. A inspiração vem, efetivamente, da disciplina.”

PÚBLICO - Schneider explica que o processo de criação dos contos é diferente do necessário para um livro. “Não penso no leitor quando escrevo um livro; jogo o anzol na água”, pontua. “Já quando escrevo para o jornal, preciso pensar nele. O leitor de jornal não necessariamente é o de literatura, e não posso escrever quantro contos seguidos que sejam tristes ou engraçados, considerando que ele os lê todo domingo.”

Vida Breve possibilitou
legitimidade e contato com leitores


Escrever ficção semanalmente para um jornal de notícias contribuiu positivamente para a carreira de Schneider na literatura – ele também é advogado. “[A coluna] fez super bem para minha condição de escritor, me legitimou internamente. Comcei a publicar mais e consigo ser publicado por boas editoras, sempre tenho alguma coisa acontecendo... Me deu um gás bastante grande. ”

O contato imediato com os leitores também é um aspecto positivo destacado por Schneider. “Recebo um retorno muito carinhoso. Toda segunda-feira tem alguém comentando comigo sobre o conto ‘de ontem’.”

Coluna saiu do jornal e virou
sessões de leitura, livro...


Neste período, a coluna rendeu frutos. Um deles foi o projeto Leituras Feevale Contos da Vida Breve, que desde 2007 circula pelo Rio Grande do Sul, pelo Brasil e pelo mundo com leituras e interpretação das crônicas veiculadas no ABC Domingo. Montevidéu, Buenos Aires, Porto, Lisboa, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Florianópolis, além de Porto Alegre e cidades do interior do Rio Grande do Sul, já estiveram nos roteiros do projeto que tem edições anuais.

A vida é breve e passa ao lado, livro mais recente do escritor, também existe por causa da coluna. Publicado em 2011, reúne 44 contos que, segundo o autor, “resumem bem esse período”. Os temas vão de relacionamentos, pequenos crimes à solidão, com personagens que o público encontra todos dos dias – com algum bem ao lado.

“Este é um tipo de literatura muito boa de ler”, avaliou Rodrigo Rosp, sócio da editora responsável pela publicação, a Dublinense, à época do lançamento. “Partimos de mais de 80 contos, chegamos aos 44 e foi uma delícia fazer este trabalho. Os contos são, por natureza, delimitados por um espaço, mas cabe um mundo lá dentro.”

...e primeiro conto inspirou curta-metragem


O monstro debaixo da cama, primeiro conto de Henrique Schneider publicado na coluna Vida Breve, saiu das páginas do jornal dominical e foi parar no programa Curtas Gaúchos, da RBS. A responsável pela livre adaptação da crônica foi a cineasta hamburguense Cris Werle.

A trama de 19 minutos chamada de Dormindo no Escuro aborda, como o nome sugere, o medo de dormir no escuro. Foi produzido no final de 2008, com atores profissionais como Marcos Verza, do longa Valsa para Bruno Stein, e Carolina Sudati, melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado 2008, que apostaram na qualidade do projeto, sem receber remuneração.

Na época em que seu curta foi exibido pela RBS, Cris Werle destacou ter escolhido o conto de Henrique por sua “característica cinematográfica”. “Quando escreve, ele descreve muito bem”, contou. A observação não é exclusiva de Cris: Jeferson De, que vai dirigir o filme inspirado no livro Contramão, fez o mesmo comentário sobre a obra.

“Ele [Henrique] sabia exatamente o que deveria ser descartado do livro, mesmo que desde o início já tenha uma pegada muito cinematográfica”, conta Jeferson. “O Henrique quase vai dividindo o livro em sequências... Então, isso foi muito fácil.”

Leia o conto O monstro debaixo da cama, publicado em 02 de março de 2003:

Ora, Renato sempre foi o que se poderia chamar de um homem normal, à exceção do estranho pavor que tinha em apagar as luzes para dormir. Quem o visse andando pelas ruas, terno cinza e pasta escura em direção à próxima reunião executiva, não adivinharia a noite clara e mal dormida que enfrentara, na qual o desconforto só era menor que o medo e a impossibilidade da escuridão.

Vinha da meninice este pânico, das histórias de terror infantil, inocentemente contadas pela família – o bicho papão, o velho do saco, a cuca, o monstro debaixo da cama. Dos primeiros fora se libertando ao crescer; do último, não. Aquela presença invisível, a ameaça que chegaria com a luz apagada, aquele animal sem forma ou tamanho que vivia na escuridão do seu quarto – Renato não se livrara do medo do monstro debaixo da cama.

Mas os problemas que vinham deste terror eram ainda mais horríveis: as noites de sono incompleto ou indormidas, a conta de luz acima de qualquer contabilidade possível, os namoros cujo romantismo não resistia à secura da lâmpada acesa, a vergonha pura e simples. Então que Renato resolveu consultar um psicólogo.

Foram várias sessões, nas quais o homem desvendou a alma e a vida de Renato, caminhando ambos nas estradas da infância e extraindo dali as forças necessárias para acabar com o mal. Ao cabo de seis meses, após os quais Renato sentia o espírito e o bolso mais leves, o psicólogo achou que ele já estava pronto para encarar sozinho o seu grande desafio.

Naquela noite, pela primeira vez desde que se conhecia por gente, Renato conseguiu apagar a luz para dormir.
E foi então que, aproveitando a chance aguardada pacientemente há quase quarenta anos, o monstro debaixo da cama o devorou.

Promoção


Para comemorar o aniversário da coluna, dois leitores serão presenteados com um exemplar cada do livro A vida é breve e passa ao lado. Basta acessar o Facebook do autor e responder à pergunta: “Qual o seu trecho preferido de um dos contos da coluna Vida Breve?”. Só valem as respostas publicadas na imagem da promoção até o dia 15 de abril.

Pode ajudar a memória consultar o site (página Vida Breve) e os tweets da conta @contosvidabreve. As duas frases mais curtidas ganham os presentes. Participe e boa sorte!
 
 

 


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