Curta-metragem inspirado em
Texto de Henrique Schneider volta a ser fonte para o cinema. Filme deve estrear em novembro.
   
Mais um conto de Henrique Schneider se transformou em matéria-prima para um curta-metragem. No último domingo, dia 24, a Paranóia Produções, de Novo Hamburgo, realizou as gravações de filme inspirado em "A Gente Dança".

A atividade causou a alteração do
trânsito nas imediações da Rua Bento Gonçalves, no Centro hamburguense. Quase 50 figurantes participaram da produção, que se estendeu das 14h às 18h10min, conta Luis Fernando Rodembuch, diretor da Paranóia. "Foi ótimo", resume Rodembuch. "A gravação atraiu a curiosidade de muitas pessoas que passavam e paravam para ver."

A expectativa do diretor é de que a edição do curta seja realizada nos próximos 30 dias. Assim, seria possível que a estreia do filme ocorresse em novembro, na terceira edição da Mostra de Curtas de Novo Hamburgo. O evento está previsto para os dias 18, 19 e 20 daquele mês.

A Paranóia também foi responsável pela adaptação do conto “A hora em que os cafés fecham” para as telas. Conforme Rodembuch, há outros textos de Schneider com os quais quer trabalhar.

Leia o conto "A Gente Dança":

O homem pára em frente à loja de discos quando escuta a música. Fica em silêncio uns instantes e então fecha os olhos, talvez para melhor ouvi-la. É um homem mais para o sério, circunspecto, algo cinzento, daqueles que ninguém imaginaria parar-se em frente à uma loja para escutar qualquer música, mas não – lá está ele, e quem observá-lo de perto encontrará em seus olhos fechados certa emoção ainda indescoberta.

E mais ainda quando o homem, ainda de olhos fechados, começa a dançar ao som daquela música. Tem os dois pés esquerdos, dança mal – mas qual o problema em dançar mal quando se conduz no ar uma parceria imaginária, que flutua e apenas lhe completa os passos? O homem baila, esquecido do mundo e dos que o rodeiam, e se é verdade que um ou dois transeuntes ensaiam certo riso ao perceber aquela dança tão bonita quanto desajeitada, o fato é que a maioria estaca, momento fácil em suas vidas, para bem apreciá-la. Afinal, um desconhecido dançando na rua é leveza inesperada e boa atravessando o dia.

E ninguém se surpreende quando uma senhora larga no chão o pequeno pacote que carregava e enlaça o parceiro desconhecido, sem que ele sequer abra os olhos para conhecê-la, porque não é necessário – o que importa é a dança, a música, a felicidade breve de tê-las. Bailam, os dois, e tudo o mais está em suspenso.

Daí a pouco, há outro casal dançando. A música já é outra, mas parece que isso também pouco importa. Outro casal, logo depois, entra na dança; e outro; e outro. E os avulsos, os solitários - aqueles que, por qualquer razão, também resolvem dançar. Em breve, uma turma inteira – talvez um grupo de amigos que estivesse passando – ensaia seus passos numa enorme roda de música que vai além da calçada e invade a rua, misturando seu ritmo às buzinas dos carros que passam ainda em pressa.

Mas daí a um tempo, também os carros começam a parar, olhos curiosos sobre aquele espetáculo improvisado. Os motoristas descem de seus automóveis, e é bonito vê-los também dançando como se tivessem realmente preparados para aquela festa.

Todos dançam, todos dançam. Cada um dança a sua própria música, a música guardada em sua memória, em sua alegria, em sua emoção, em sua vida.

Tão imersos, todos, em suas danças, que ninguém sequer percebe que a loja de discos já está fechada.


FOTO: ilustrativa

> Notícia publicada em 26/08/2014.
 
 

 


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