Bon Vivant dá dica para o bem viver: vinho com cultura
Revista com foco na enogastronomia e no enoturismo tem Henrique Schneider entre os colaboradores.
   
Desde o início de abril, quem gosta de vinho e cultura não precisa mais colecionar revistas para ler sobre os dois assuntos. Tem tudo em uma só publicação. É a nova fase da Bon Vivant. O próprio slogan resume bem o que os leitores vão encontrar: O melhor da vida em suas mãos.
Mantida pela editora Novo Ciclo, de Flores da Cunha, a revista tem circulação nacional, com ênfase na Grande Porto Alegre e Serra Gaúcha. Além de enogastronomia e enoturismo, aborda arquitetura, móveis e decoração, saúde e comportamento, moda, arte, literatura, automóveis, economia e negócios. Entre os colaboradores, o escritor Henrique Schneider, que publica uma crônica na primeira edição dessa nova fase (leia abaixo).

Segundo a editora, as matérias são voltadas ao bem viver das pessoas. O vinho, tudo o que o envolve, claro, é o destaque. “O leitor encontra dicas de receitas e sua melhor harmonização. Apresentamos e comentamos alguns vinhos, oferecendo dicas de melhor compra aos apreciadores”, explica a jornalista Andréia Debon. “Também trazemos dicas de como degustar um vinho, como diferenciar as castas das uvas, os tipos de uvas, como saber se ele está pronto para beber ou se tem alguns defeitos.”

Baixe a revista Bon Vivant (Edição 140)



Crônica do escritor Henrique Schneider

E DESCOBRIR

Entrar no quarto e vagarosamente descobri-lo. Colocar a mala no chão e olhar em torno, estudando os móveis, os apetrechos - a cama, o armário antigo, a escrivaninha onde se pode tomar notas iluminadas pelo abajur de alabastro que deve estar lá há séculos, o criado mudo em cuja gaveta estarão a Bíblia e um catálogo telefônico, o frigobar de onde, daí a pouco, certamente recolherá uma cerveja, a televisão que sempre auxilia nas noites de pouco sono.

Então, apoiar as duas mãos no colchão para verificar o quanto é firme ou macio, e descobrir com um sorriso que ele está mesmo no ponto: um colchão de molas, destes que hoje já não são feitos. Depois, agarrar o controle remoto do televisor e percorrer alguns canais, apenas para saber a quantas anda a imagem e quais as parecenças com a programação dos outros lugares por onde passa. Aí, jogar o controle remoto sobre a cama e atirar-se no colchão por uns cinco minutos, enquanto vagueia de canal a canal. Deixar-se ficar.

E aí, lembrar-se de verificar o banheirinho logo ao lado – para descobrir, deliciado, que há ali uma banheira em que se poderá recostar o corpo após as caminhadas que já o esperam. A pia, um vaso sanitário bem limpo, os toalheiros guarnecidos – nada mais. E nem precisa.

Só então abrir a janela. Abri-la em ambas as folhas, de uma só vez, para que a cidade e seus telhados se revelem súbitos, paixões a serem descobertas mais adiante. Debruçar-se na janela e mirar os longes e os pertos, apenas mirar. Não pensar em nada de importante, a não ser a própria cidade. E olhar, olhar. Depois de um tempo parado na janela, os descobrindos, talvez aquela cerveja.

Então guardar as roupas no armário apertado e escolher aquela com que inaugurar a cidade. Enquanto isso, colocar a banheira a encher, tomando o cuidado para que a água tenha a tepidez bem medida. Entrar no banho sem tentar evitar o suspiro da delícia. Ficar por ali meia hora, até que a água já esteja fria e isso seja o recado de que há mais a fazer. Secar-se, afeitar-se e vestir-se como a cidade merece.

E então sair. Deixar a chave na recepção e cruzar a porta como se fosse uma aventura que agora começa (porque é). Chegar à calçada e decidir sem medo de errar o lado para onde ir, porque todos os caminhos estão certos. Sair a andar sem rumo ou escolha por esta cidade desconhecida, começar agora a descobrir suas maravilhas.

E pensar: Rubem Braga disse, em certa crônica, que chegar num hotel e logo sair a caminhar para encontrar as belezas de um lugar estranho era algo que fazia a vida valer a pena.

Rubem Braga sabia das coisas.
 
 

 


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