SOBRE OS LIVROS
 

Respeitável Público segundo Dilan Camargo

Dilan Camargo, poeta e escritor

Henrique Schneider cria uma história na melhor tradição das narrativas latino-americanas ao expor a tragicomédia do poder político unipessoal diante de fatores fantásticos e humanos que fogem ao seu controle. Ele capta e atualiza, de forma original, o que representa o circo no imaginário humano, com o seu fado de encantar e de mudar destinos. O encontro da filha do todo poderoso prefeito da remota cidadezinha de Galateia com o trapezista do Gran Circo Holywood transcende a beleza das histórias de amor e nos joga no coração de uma contradição metafórica entre Poder e Arte. Vemos desfilar um insólito exército de capangas do prefeito mobilizado para invadir um circo mambembe. Vemos o espetáculo de “soldados armados” contra artistas de circo munidos apenas de suas artes malabares. Mais uma vez, Henrique Schneider confirma a sua trajetória de exímio narrador e de um escritor que ressalta a singela humanidade dos seus personagens. Esta é uma das características que torna distinguível a sua excelente literatura.







Comentário sobre A Vida é Breve e Passa ao Lado

Menalton Braff

Henrique Schneider faz literatura moderna (pelo tema, pela construção da linguagem, pela visão de mundo) sem ser modernoso. Sua linguagem é moderna sem os trejeitos daqueles que pensam fazer concessão à linguagem popular; e é clássica sem o bolor de quem pensa escrever para nossos antepassados.







"Orelha" do livro Contramão

Moacyr Scliar

Uma muito antiga história do Oriente Médio conta que, na cidade de Bagdá, um homem procura seu patrão, muito assustado: ´estou chegando do mercado, mestre, onde acabei de encontrar a Morte, que me olhou de maneira ameaçadora. Peço-vos um cavalo, para que eu possa fugir para Samarra.´O homem atende ao pedido, mas, indignado, dirige-se ao mercado, onde, de fato, encontra a Morte. Interpela-a: ´por que assustaste o meu empregado?” “eu não o assustei”, retruca a Morte. “Apenas manifestei-lhe minha surpresa em vê-lo aqui, já que ele tem um encontro marcado comigo em Samarra.” Moral da história: ninguém escapa a seu destino, particularmente quando este destino é a morte.

Em Contramão, Henrique Schneider nos conta, de maneira absolutamente fascinante, a história de um homem que tem um encontro com o destino. A época é a atual, o lugar é o Rio Grande do Sul e não o Oriente Médio, mas o simbolismo que inspirou a antiga narrativa aqui está presente, ampliado e reforçado pelo talento do narrador. O que ele nos conta, em ritmo trepidante, é aquilo que poderíamos chamar, por analogia aos road movies, de uma road story, uma história em que o deslocamento por estradas e lugares tem sua contrapartida na viagem interior, e na descoberta (amarga, no caso) do fator humano. O personagem principal, a quem somos apresentados já na primeira página, é Otávio Augusto Ribeiro de Souza, o protótipo de jovem executivo ambicioso, preocupado com sua aparência pessoal e envolvido com seus planos para o futuro , planos estes que incluem o casamento com Claudia, que não é objeto de uma paixão arrebatadora, mas que reúne as características para ser uma boa parceira na vida matrimonial. Quando sai de casa nessa manhã, portanto, Otavio Augusto está apenas dando prosseguimento à sistemática rotina que o conduzirá de triunfo em triunfo. Isto é o que imagina. Mas, no seu trajeto de carro, encontrará o destino – e a partir daí, sua vida mudará drasticamente. Esta trajetória, o leitor acompanhará com a respiração suspensa, tal o domínio da técnica narrativa deste escritor.

Jovem ainda, Henrique Schneider já conquistou seu lugar entre os grandes ficcionistas brasileiros. Seu primeiro romance, O Grito dos Mudos (Prêmio Mauricio Rosemblatt de Romance, 1989), foi saudado como obra-prima pelo grande ensaísta e estudioso da literatura, merecendo elogios de Caio Fernando Abreu e de Tabajara Ruas. Henrique Schneider publicou ainda três novelas e participou de várias coletâneas de contos. E, Novo Hamburgo (Grande Porto Alegre), onde nasceu e onde vive, é colaborador do jornal ABCDomingo, assinando a coluna semanal de contos Vida Breve. Contramão certamente ampliará o círculo dos já numerosos leitores de Henrique Schneider, um ficcionista que tem agora consagrada sua posição na literatura brasileira.







Uma vítima dos próprios métodos

Tailor Diniz – Revista Aplauso

Contramão, o quarto romance de Henrique Schneider, segue a receita bem sucedida do primeiro, O Grito dos Mudos, aquele que maior repercussão positiva teve na crítica, ganhador, em 1989, do Prêmio Maurício Rosemblatt de romance, à época um dos mais importantes do Brasil. Uma espécie de vítima do veloz processo de automação que tomava conta do planeta na década de 80, o protagonista vê sua atividade de lavador de pratos ameaçada pela compra de uma máquina de lavar, no restaurante onde trabalha. Atormentado com a nova realidade, sai a perambular pelas ruas da capital, numa peripécia que lembra a de Naziazeno, notável personagem de Dyonélio Machado, em Os Ratos. A história se passa numa noite, e o caráter da personagem principal de O Grito dos Mudos faz jus a esse que é um dos romances mais impressionantes da literatura brasileira.

Em Contramão, Schneider retoma o tempo ficcional visto em O Grito dos Mudos (a ação se passa em 24 horas), assim como apresenta uma personagem cujo maior trunfo é o perfil psicológico, construído com rara competência e ajustado senso de atualidade. As semelhanças entre as duas obras estão nas posições sociais opostas de seus protagonistas no chamado mundo globalizado. De um lado, o operário braçal, sem qualificação, que precisa sobreviver competindo com a máquina. De outro, um jovem executivo seguidor à risca das regras do mercado, que se incompatibiliza com o tio porque esse trata os empregados da empresa da qual é proprietário pelo nome, entende que um ´processo de reengenharia´ só pode ser feito com a demissão de trabalhadores e que no mundo atual, para a roda continuar em movimento, ´alguém tem que sobrar´ sempre.

Um obstinado por fazer carreira, partidário de uma geração em busca constante de resultados, que tem no tempo bem aproveitado um dos pilares do sucesso, Otávio Augusto acaba vitima dos próprios métodos e conceitos. Numa manhã, quando segue para o trabalho, sempre convicto de que cada segundo vale ouro, e por isso não pode ser negligenciado, força o sinal fechado diante de um colégio e sua vida dá uma guinada de forma radical. Entende-se no subtexto de Contramão que a violência, ao contrário do que preconceituosamente se pensa, não está apenas entre as classes baixas e marginalizadas das favelas. Ela se esconde também, pronta para atacar, na índole de jovens de terno e gravata que, na direção de um carro importado último tipo, avançam o vermelho, certos de que o mundo é só deles. Tal episódio exige uma decisão à altura do executivo competente diante de uma situação delicada. Otávio Augusto, então, segue um caminho sem volta. Seus passos se revelam uma sucessão de equívocos que o levam a um destino jamais imaginado minutos antes, enquanto tomava café em seu apartamento e repassava os compromissos do dia como gerente da metalúrgica da família.

Henrique Schneider constrói uma narrativa recheada de detalhes, com nomes de ruas, monumentos e prédios, uma quase reverência a Porto Alegre e sua geografia. Na estrada, quando Otávio Augusto segue seu destino de equívocos e contravenções também se mostra criterioso na referência a lugares e ações, às vezes chegando a um certo exagero. No episódio no qual o protagonista decide trocar as placas do carro onde empreende sua fuga, desde o momento em que vai a uma loja comprar o alicate até realizar seu intento, são utilizadas 17 páginas cheias, sem que haja um fio de tensão ou de relevante interesse para justificá-las. A história volta a ganhar um consistente nível de densidade social e psicológica e social quando Otávio Augusto conhece uma militante do mercado informal no ônibus que o leva à fronteira com o Uruguai. Esse episódio o coloca frente a frente com uma realidade que ele, um jovem executivo envolvido com os conceitos de globalização, ainda não conhece na prática. O final surpreendente soa como uma lição para quem, como Otávio Augusto, tem a arrogância como item principal na cartilha das relações humanas.







Não se pode voltar atrás

Nelson Oliveira - Revista literária Verbo 21

Contramão, mas pode chamar de Desventuras em Série. Brincadeiras e comparações à parte, Contramão (Bertrand Brasil, 2007, 176 págs.), do gaúcho Henrique Schneider, foi finalista, na categoria Melhor Romance, do 50º Prêmio Jabuti, levando ao leitor a grande cadeia de percalços que atinge a vida do personagem principal, o jovem empresário Otávio Augusto.

Um autêntico yuppie porto-alegrense, já em vias de se tornar bem-sucedido na sua carreira administrativa (como gerente da metalúrgica do tio), Otávio atropela duas crianças a caminho do trabalho. Desesperado, com a certeza de que as assassinou (afinal, os olhos de morte da menina) e com medo de ser reconhecido em seu chamativo carro importado, foge da cena do crime, tentando escapar às denúncias – que ele considera evidentes.

A partir de então, cai na estrada, enquanto sua vida estável acaba marcada pelas veleidades da incerteza. A leitura é rápida e a dinâmica da narrativa se dá ao passo que Otávio Augusto vai se embaraçando nas redes de atos incentivados por suas certezas precipitadas. Neste misto de thriller e road story, cada quilômetro rodado é acrescido ao grau de entropia da vida de Otávio Augusto: desordem e progresso, rumo ao sétimo posto de gasolina, ao Uruguai. Cada quilômetro percorrido pelo protagonista é também submetido a um exame descritivo feito por Henrique Schneider. Com muita competência, ele descreve exaustivamente cada área pela qual Otávio passa; da exuberante fauna e flora da reserva ecológica do Taim às lúgubres mercearias do interior. Ao longo de todo o livro, cada momento de descrição é enriquecido por comentários irônicos ou demasiadamente detalhistas, que muito servem para capturar ainda mais o leitor e estabelecer contrastes com a frieza e a insensibilidade (agora) desesperada do personagem principal.

Schneider sabe lidar com o demasiado: além de ser positiva e excessivamente descritivo, tem o mérito de ter criado um protagonista muito interessante. Otávio é excessivamente antagônico - o que poderia torná-lo um personagem clichê e superficial nas mãos de escritores menos habilidosos -, mas sua antipatia é um recurso muito bem trabalhado pelo autor. Ele constrói um personagem bastante mesquinho, que não poupa esforços para atingir seu próprio sucesso e, que, ao ensaiar sensibilizar-se com algo, automaticamente se reprime para não se desviar de seu foco principal. Como o próprio Otávio afirma, “objetividade sempre”.

Otávio Augusto aplica os métodos de gerenciamento de empresas em sua vida, não admitindo imprevistos. Como fazia no trabalho e na vida pré-atropelamento, ele tenta premeditar cada vilania que irá cometer, apenas concentrado no objetivo de chegar ao Chuí e ultrapassar a fronteira, utilizando seus saberes estratégicos (aprendidos na faculdade de administração), ao passo que o descontrole proporcionado por cada crime cometido vai lhe tomando, deixando claro que é impossível programar a vida.

Em Contramão, Henrique Schneider acaba trazendo questionamentos sobre a conduta humana perante situações extremamente adversas, e o que é considerado válido para subir na vida. Otávio Augusto não era tão diferente antes do acidente: não se importava com os outros e não hesitaria em promover demissões em massa na metalúrgica do tio. Otávio já era do tipo que odeia a solidariedade e outras coisas que sejam “bondade sem nada querer em troca”. Mas, à medida que os acontecimentos provocados por ele vão se acumulando, sua moral se revela ainda mais sórdida. Otávio, um dândi, vai se desligando até mesmo da sua enorme vaidade para conseguir escapar do que cometeu. No ritmo frenético de Contramão, Schneider – que também é autor do aclamado O grito dos mudos, publicado em 1989 – consegue fazer, através de um livro de leitura rápida, com que o leitor reflita sobre um tema psicológico atormentador, sem que deixe de lado os prazeres literários, com uma boa técnica de descrição e de exacerbação da personalidade e dos pensamentos de cada personagem. Até mesmo os personagens que aparecem rapidamente na história conseguem conquistar, porque tem cada nuance de personalidade dignamente trabalhada. Todos os personagens submetidos às vicissitudes do acaso, à toada da narrativa, até seu final: ao começar a leitura, não dá para voltar atrás.







Contramão, de Henrique Schneider

Luiz Eduardo da Matta - Revista eletrônica Digestivo Cultural

Fiquei muitíssimo bem impressionado com a recém-concluída leitura de Contramão (Bertrand Brasil, 2007, 176 págs.), do escritor Henrique Schneider, um dos bons livros que me fizeram companhia neste verão. O romance, consistente e muito bem escrito, de narrativa ágil e um encaminhamento surpreendente, revela as angústias e desatinos de um homem comum, assaltado pela imprevisibilidade da vida, por meio de uma interessantíssima road story em verde-amarelo com sotaque gaúcho.

Contramão, embora não seja declaradamente um thriller, acaba funcionando como tal, já que, uma vez deflagrada a questão dramática logo nas primeiras páginas, o ritmo tenso e inquietante com o qual o narrador conduz a trama, captura de imediato a atenção do leitor que, a partir de então, torna-se refém dos destinos de Otávio Augusto Ribeiro de Souza, o protagonista. Otávio é um vaidoso e ambicioso executivo de 25 anos, que dirige a metalúrgica do tio e mantém uma relação estável, porém morna, com uma moça, Claudia, com quem pretende se casar em breve ― como, aliás, manda o código social do executivo bem posicionado. Tudo na sua vida parece encaminhado e nos seus devidos lugares, quando, numa manhã como outra qualquer, ao sair de carro do prédio onde mora, em Porto Alegre, em direção ao trabalho, Otávio, inadvertidamente, atropela duas crianças que atravessavam uma avenida. Ele apavora-se ao contemplar os dois corpos estendidos no asfalto e, antes que alguém venha acusá-lo de assassinato, resolve, impulsivamente, fugir.

É essa fuga, desesperada e beirando a paranóia, que permeia toda a história. Otávio está certo de que a polícia se encontra no seu encalço ― ainda que não possua nenhum indicativo concreto disso ― e, para escapar dela, embrenha-se pelas estradas do Rio Grande do Sul em direção à fronteira com o Uruguai, onde, acredita, estará a salvo. Neste percurso muitas coisas acontecem. Sempre procurando se antecipar aos seus supostos perseguidores e cada vez mais ciente de que é um foragido procurado por todo o estado, Otávio se transfigura totalmente, e transforma-se em alguém totalmente despido de moral e limites, capaz de qualquer ato em nome da liberdade; alguém, por sinal, muito diferente do executivo esquemático do começo do livro, cujo futuro dourado parecia garantido. A trama avança à medida que Otávio se aproxima do Uruguai e, em meio a lances audaciosos e até perversos, é possível refletir sobre os limites da moral humana. Até que ponto o indivíduo é capaz de conservar sua integridade e decência em situações extremas? Até que ponto conseguimos manter o equilíbrio emocional e não imergir em teorias conspiratórias que, muitas vezes, estão presentes unicamente na nossa imaginação? Mesmo o homem mais civilizado está imune a se deixar dominar pela própria barbárie?

O certo é que, a despeito da dramática mudança operada em Otávio, de suas atitudes abjetas e repulsivas e da loucura que o domina enquanto luta para chegar à fronteira, torcemos por ele o tempo todo, como se o nosso lado obscuro também emergisse no decorrer da leitura. Como se nós, leitores, estivéssemos, igualmente, fugindo de alguma coisa e nos debatendo de forma febril a fim de preservar a nossa liberdade.

Este não é o primeiro trabalho de Henrique Schneider, nascido em Novo Hamburgo, em 1963. Ele tem outras obras publicadas, como Pedro Bruxo, A segunda pessoa e o premiado O grito dos mudos, lançado originalmente em 1989, e reeditado em 2006. Após a boa experiência com Contramão, já adicionei O grito dos mudos à relação das minhas próximas leituras. Pelo que li na sinopse, o livro ― que narra o desespero de um homem de 47 anos ante a repentina perspectiva de ficar desempregado ― parece abordar uma questão similar à de Contramão: a de como a sensação de estabilidade pode ser ilusória diante dos imprevistos surgidos ao longo da nossa existência. Trata-se de um tema incômodo, pertinente e sempre atual, caro a todos nós, e nada melhor do que uma ficção inteligente para nos levar a pensar a respeito e a fazer, se possível, uma analogia com as nossas próprias vidas.







Henrique Schneider, um jovem mestre das letras

Eduardo Jablonski – Jornal ABCDomingo

O filósofo Emil Cioran e o crítico literário Álvaro Lins diziam: o escritor deveria reescrever muito, escrever pouco e publicar menos ainda. Pois é assim que as pérolas nascem. O escritor novo-hamburguense Henrique Schneider sabe disso.

Publicou Pedro Bruxo (1984) e somente anos depois conquistou o Prêmio Maurício Rosemblatt com O Grito dos Mudos (1989), obra prima lírica, embora de molde conservador. O texto segue o raciocínio de novela estudada por Massaud Moises – introdução apresentando os personagens e o ambiente, além do enfoque, desenvolvimento e desfecho.

Agora, nove anos depois, Henrique Schneider lança A Segunda Pessoa (Mercado Aberto). É seu terceiro romance. Nessa obra, ousa na forma, sem esquecer a tradição. Afinal, como ensinava o poeta e ensaísta T. S. Eliot, o novo não surge isolado, precisa basear-se nos traços dos mestres. Foi exatamente o que fez o hamburguense. O narrador de A Segunda Pessoa, uma espécie de voz crítica onisciente do personagem principal, introduz a história analisando o ´cotidiano da escrita” (expressão de Antonio Hohfeldt).

Fala dos problemas enfrentados pelo escritor no ato de escrever. O mesmo Clarice Lispector fez em A Hora da Estrela (1977). Portanto, aqui está a aproximação com o clássico.

Em que local se encontra a ousadia? Na maneira de conduzir a história. O romance é realizado na segunda pessoa do singular. Não se pode dizer que já não tenha sido escrito (segundo André Gide, tudo já foi feito). O normal é escrever em primeira ou terceira pessoa do singular. O gaúcho Paulo Waimberg, entretanto, publicou pouco anos um belo e bem estuturado romance (Os Malditos) em primeira pessoa do plural.

Com A Segunda Pessoa, Henrique Schneider ´fez novo e simples” (“make it new, make it simple”, dizia Ezra Pound). O romance não traz diálogos, mas o leitor tem a impressão de vivenciar os acontecimentos, tal o nível dramático de algumas cenas.

Como queria Tristão de Ataíde (pseudônimo, como se sabe, de Alceu Amoroso Lima), Henrique Schneider se mostra extremamente humano, característica principal de O Grito dos Mudos. Em A Segunda Pessoa, escreve sobre a problemática da separação de um casal.

As reflexões são espontâneas, e mesmo as figuras de linguagem (esse cara também é poeta – e do primeiro time – um gremista talvez?) preenchem o corpus da história de forma natural, expandindo o significado. Em alguns casos, Henrique Schneider consegue ampliar o campo semântico sem utilizar imagens.

Para Fernando Pessoa, em seus estudos de estética e estilística, esse é o melhor lírico. Bem, não trago esse tipo de exemplo porque, fora do contexto, perde a força expressiva. Enfim, A Segunda Pessoa está, com certeza, entre os melhores livros lançados na década.







A Segunda Pessoa

Simone Saueressig – Jornal Folha de Novo Hamburgo

Uma das `teses` que tenho defendido junto aos meus amigos é que livro bom é aquele que se lê sem que a qualidade do texto prejudique o desenrolar da leitura. Equilíbrio complicado esse, e que muita gente não entende. Mas é que existe um denominador comum na maioria dos grandes escritores: o talento não se sobrepõe ao ato de contar uma história. Assim é A Segunda Pessoa, do hamburguense Henrique Schneider. Uma prosa sensível, lírica mesmo, que desnuda aos olhos do leitor um conto do cotidiano, a história de uma separação. Poderia ser o relato de qualquer pessoa, a da vizinha, a de quem me lê nesse momento, só trocando uns ou outros nomes, uns e outros fatos. Mas o choque,a dor da perda, mesmo quando se trata de uma ruptura anunciada, são plasmados de uma maneira muito pessoal – sincera, dura e delicada ao mesmo tempo. Dura pelo conteúdo, que as catástrofes nossas sempre ardem. Delicada pela forma. Ao mesmo tempo desnuda e reveste o personagem central da narrativa.

O mais curioso é que esse personagem não tem nome. É o leitor, pois o texto está escrito na segunda pessoa do singular. De fato, talvez seja o que mais chama a atenção na obra: resgatar um ´personagem´ verbal que cada vez se vê menos, e que cada vez parece ser menos apreciado pelas editoras. O ´tu´, de fato, mais do que caindo em desuso, está desaparecendo. Cada vez falamos menos com a pessoa que está diante de nós, e cada vez falamos mais à que acabou de passar. À que ainda não veio.

Henrique não. Nessa curta novela, onde o texto cumpre com prazer o destino de contar uma história, sem deixar de lado a qualidade, o autor olha o leitor nos olhos e desgarra uma prosa cheia de contemporaneidade. E contando a história de um anônimo, nos conta a história de todos nós.







Com mão de mestre

Tabajara Ruas

Obra-prima de um escritor que domina a sua arte´, escreveu a respeito deste livro ninguém menos do que o professor Paulo Rónai. E acrescentou: “(..) conduz a sua história com mão de mestre sabe prender e comover o leitor.´

Depois disso não acho necessário que se escreva mais nada. Quem tem este livro nas mãos – O Grito dos Mudos, de Henrique Schneider - , o melhor que fará é mergulhar na sua leitura, de onde poderá sair purificado por um banho do que nossa literatura produz de melhor. Mas tenho o compromisso de escrever esta orelha, e então vou aproveitar para expor alguns dos motivos por que recomendo com urgência sua leitura.

Primeiro, a concisão de sua arte. Não há grandes espaços nem guerreiros nem cargas de cavalaria. Há um lavador de pratos. Há a ameaça de perder o emprego. Há a pequena tristeza dos muitos pobres. Henrique Schneider faz tudo isso ficar enorme. E com que magia! Com a escolha adequada das palavras, o ritmo preciso das frases e a tenaz persistência de sua poesia do desencanto, que se insere por todos os cantos da narrativa, como a umidade da madrugada.

Segundo, porque seu livro é percorrido por um estremecimento de compaixão legítima, livre de sentimentalismos e de veemência. Seus pobres não são heróis proletários erguendo a chama da luta de classes. São apenas pobres. Só querem seu pequeno ganha-pão, sua pequena segurança.

Na verdade, os pobres de Henrique Schneider odeiam e desprezam os outros pobres. Não os queremos mal por isso, durante a leitura do livro. Nicolau, o lavador de pratos, é tão real, que nós o compreendemos, nós o perdoamos e torcemos por ele, na sua pequena odisséia tragicômica.

Compreender é uma palavra-chave deste texto. Com humildade, com lucidez, com tato, Henrique tenta compreender seu personagem, um pobre deste país, um pobre deste planeta, e não chora por ele, tenta decifra-lo na grandeza de sua pequenez. Henrique nos leva junto nessa viagem de compreensão, e, quando chegamos ao fim, estamos comovidos, não pela sua vitória, que não vem, mas pela migalha de felicidade que lhe cabe, nas brumas da alienação.







Sexo, tiroteio e mentiras preconceituosas

Caio Fernando Abreu – Jornal O Estado de São Paulo

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Em O Grito dos Mudos, lidando com um quase nada de elementos ficcionais, Henrique Schneider flerta com o minimalismo. Seus fatos tênues e personagens medíocres podem remeter à Hora da Estrela, de Clarice Lispector;sua atmosfera de pesadelo, à Os Ratos, de Dyonélio Machado; a preocupação de retratar um cotidiano absolutamente desglamourizado, ao romance dentro do romance em Um Lugar ao Sol, de Erico Veríssimo. Mas parentescos lisongeiros não eliminam a decidida marca pessoal de Schneider. Seguro, contido e rigoroso como evita a pieguice e o melodrama, em pouco mais de 100 páginas ele realiza uma pequena obra-prima. A cara deste Brasil 90, onde a sofisticação tecnológica convive com um mínimo de justiça social. Nos dois romances, a prova de que nossa literatura atual, mais que meros doces de coco, às vezes oferece também alguns pratos de resistência. Vedados, claro, aos arrogantes e preconceituosos.







Talentos Gaúchos

Juremir Machado da Silva – Jornal Zero Hora

Todo dia um intelectual (?) reclama que os jornais gaúchos não fazem comentários sobre livros ou dão pouco espaço à cultura. Todo dia um produtor cultural (?) afirma que não é entendido e salienta a existência de um reinado da mediocridade. Todo dia uma criador ferido, e sua comunidade de protetores, condena os malditos críticos que não compreendem a genialidade das produções locais e, colonizados, entregam-se a elogiar a Europa. Pois é, todo dia se pede um pouco de paternalismo, provincianismo e compadrismo. Aí, silenciosamente, aparecem algumas pessoas e começam a criar, sem choro ou ressentimentos. No Rio Grande do Sul, neste momento, alguns bons valores estão aí mesmo para todo mundo ver. Um deles é, sem dúvida nenhuma, Henrique Schneider, autor de O Grito dos Mudos, vencedor do Prêmio Mauricio Rosemblatt.

Schneider é consistente. Seu livro tem um sabor amargo encontrado em Clarice Lispector. Ele descreve a angústia do homem, Nicolau, mergulhado e seu cotidiano de simplicidade, no momento em que o avanço tecnológico tira-lhe o sustentáculo, a segurança, o sentido. Faz isso, no entanto, com uma linguagem seca, enxuta, ritmada, capaz de traduzir os movimentos rotineiros de um lavador de pratos. A vida, imperativo categórico, é ultrajada. Schneider desvenda o processo com sutileza, sem jamais ser didático ou panfletário. Mas com a importante capacidade de emocionar, de vincular o leitor, fazê-lo sentir-se um membro da mesma rede de desesperados. E sem qualquer recurso ao grandiloquente, ao apelo ideológico explícito ou as lições de moral. Eis um escritor que arranca maduro e poupa a todos de ouvir mais uma pregação melosa. Detalhe: trata-se de um texto linear.







Emoção na vida de gente como a gente

Maurício Melo Junior – Correio Braziliense

Um homem e uma mulher. Nicolau está a beira do desemprego. Natélia espera a chegada do marido. Ambos estão sobrecarregados de incertezas. Ambos esperam o passar de uma noite agônica.

Agraciado com o Prêmio Maurício Rosemblatt de Romance, para autores já publicados, Schneider desponta com O Grito dos Mudos como uma forte promessa de revitalização da nova literatura brasileira. Tânia Carvalhal é enfática: ´Bem escrito e bem realizado, o livro é um romance de densidade dramática e psicológica´. E aqui pode estar a síntese do pensamento do júri responsável pela premiação.

A ação se passa num espaço de vinte e quatro horas ansiosas e eternas. Neste tempo, a vida é passada a limpo, Nicolau, um homem comum, lavador de pratos em um restaurante, casado com Natélia, aos 47 anos sente-se ameaçado com a possibilidade do desemprego. Diante da surpresa, sua atitude é apenas parar, reter dentro de si o vulcão que abriga uma digna superioridade. Natélia tem quase 40 anos de apatia e espera. Juntos sonham com coisas simples. São solidários na vidinha comum. ´Sempre os dois sozinhos, um com o outro dividindo as vidas e a esperanças.´

A Fortaleza dos Fracos - Os personagens são miúdos, nanicos, mas Schneider consegue arrancar emoção das vidas da gente do povo, das personagens comuns que sonham com as coisas simples e que se indignam diante das injustiças – “o sucesso dos grandes homens tem, como ponto de partida a humildade”. Titubeiam diante da realidade escarrada na cara. Mas se revoltam a acreditar que a “justiça não é palavra para ficar no dicionário”. Mas esperam. E a espera é algo cruel e desumano. Podem chegar ao vômito. E o vômito jorra do estômago, como um esgotamento da própria consciência. E continuam em sua plena espera.

Schneider é contundente na sua visão dos que sofrem o cotidiano suburbano e marginal. Pincela a linguagem com alguns vícios típicos dos pampas. Mas a leitura flui. Lê-se como quem senta diante de uma tela de cinema. As cenas passam com nitidez e vida. Com colorido, até. O constante recontar das cenas, por vezes na integra, antes de trazer cansaço, traz o sentimento da ênfase, da crença em cada palavra dita.

Mas por aqui tudo está voltado para revelar a dignidade dos humildes. Devolver a vida ao amontoado de sujeira que todas as manhãs se poe em sua frente é a função de Nicolau. Aqui é poderoso, é quase um adeus. Embora muitos já tenham alcançado “a nudez infinita da morte”, ainda resiste nestes seres o poder de continuar na luta em defesa da vida.

Passados os sustos normais dos acidentes de percurso, a vida tende a correr pelo seu leito normal. E o homem do povo não cansa de esperar seu espaço.







O Grito Dos Mudos dialoga com dilemas dos seres invisíveis da atual realidade brasileira

Marcio Renato dos Santos – Jornal Rascunho

A limpeza. E o temor diante da ameaça de vir a ser substituído por uma máquina. Estas são as duas questões centrais de O Grito dos Mudos, romance de Henrique Schneider. A narrativa apresenta um personagem que passou por diversas ocupações mal remuneradas, socialmente irrelevantes e invisíveis até encontrar um ofício, também mal remunerado, socialmente irrelevante e invisível mas que, como o texto insinua, é o mais adequado para a sua personalidade: lavar pratos. Nicolau, o protagonista de O Grito dos Mudos, lava pratos em um restaurante.

Pegar o prato sujo; extrair dele as sobras e despejá-las na lata de lixo, (...)

Pegar o copo sujo; extrair dele as sobras e despejá-las na lata de lixo, (...)

Pegar a travessa suja; extrair dela as sobras e despejá-las na lata de lixo, (...)

Pegar o garfo sujo; extrair dele as sobras e despejá-las na lata de lixo, (...)

Pegar a faca suja; extrair dela as sobras e despejá-las na lata de lixo, (...) Limpar. Eis a missão profissional e, acima de tudo, existencial de Nicolau. Extrair a sujeira. E ficar, permanecer quietinho. O personagem central de O Grito dos Mudos, a exemplo da grande massa que atua nas coxias e bastidores da realidade, não tem voz. Apenas cumpre a sua função. E segue. Continuamente. Todos os dias. Repetidamente. Sem nenhuma surpresa. Sem tempo, nem vez, nem espaço para, por exemplo, enunciar frases, emitir ais em voz alta ou apresentar possíveis pontos de vista. Nem mesmo no seu campo de batalha: a área do restaurante destinada à limpeza de pratos, copos, travessas, garfos, facas e outros objetos. Atento deve estar, apenas, para o seu ofício:

Na verdade, ninguém se importa muito com isso (o não falar). O que importa é que os talheres e pratos estejam limpos e reluzentes quando necessário.

O jeito estranho de Nicolau - quieto, fechado, quase sombrio - é só dele; a louçaria, entretanto, faz parte do ganha-pão de todos por ali. Afinal, nela são servidas as iguarias para os fregueses. Desse modo, no momento em que tudo está limpo, aos outros não faz diferença se Nicolau está com o pensamento próximo ou longínquo.

Estratégias

A narrativa de O Grito dos Mudos se dá, também, por meio de reconstituições. O leitor e a leitora têm acesso a determinada informação, por exemplo: que o protagonista é casado. Posteriormente, e apenas posteriormente, o texto oferecerá dados a respeito de tal condição. E, é preciso afirmar: tal estratagema funciona, sim, com eficácia.

No entanto, o ponto alto da narrativa acontece a partir do momento em que Nicolau recebe a notícia de que uma máquina de lavar será instalada na empresa em que ele trabalha. A partir daí, o texto pode vir, até, a provocar nos leitores uma sensação que beira o desespero, o pânico e a ausência de chão diante do porvir: o então estado de Nicolau.

Naquela manhã, Nicolau saíra de casa com uma ânsia incomum no estômago, sentindo dentro da boca o cheiro acre do café mal tomado. Algo estava ruim - ou ficaria ruim, era o pressentimento que ele tinha. A ameaça de ser substituído por uma máquina transtornou Nicolau. Ele não havia sido comunicado de nenhuma mudança. Havia, sim, apenas a imagem da máquina sendo instalada no ambiente de trabalho. E foi esta imagem que provocou transformações no protagonista. Afinal, havia contas, compromissos, enfim, uma existência a ser mantida por meio do emprego. "Demissão depois dos quarenta nunca é algo simples, é sempre um ato complexo, ao menos para quem é demitido." Depois de uma jornada de lavar objetos no restaurante, ele quebrou a rotina. E não voltou para casa.

A narrativa mostra em dois momentos o não-regresso de Nicolau. Pelo ponto de vista de Natélia, a esposa que espera o marido e fica a imaginar o que se passa, ou passou, com ele. E a partir da ação de Nicolau que, perturbado com a possível perda do emprego, perambula pelas ruas. O protagonista de O Grito dos Mudos, em um primeiro momento, entra em uma loja a fim de obter informações a respeito de uma máquina de lavar. Desacata o vendedor: "Um bom lavador é mais ligeiro do que este robô". Posteriormente, caminha até chegar a um bar onde bebe e encontra uma prostituta com quem vai passar alguns minutos. Fica evidente, até demais, que o sujeito obcecado pela idéia de limpeza se deixa sujar com uma possível impureza social. Enquanto isso, a esposa, depois de pensar em diversas possibilidades, trágicas em sua maioria, dorme à espera do marido - num momento de lirismo e intensidade narrativa incomuns na malha ficcional brasileira.

Engrenagens

O subtítulo de O Grito dos Mudos traduz com precisão a proposta da obra: a história de muitos homens contada através da história de um só homem. E é isso mesmo. O romance mostra por meio da trajetória de Nicolau como são ou podem vir a ser alguns dos vários anônimos, os brasileiros não-celebridades. Nicolau representa um brasileiro pobre, a exemplo da maioria que forma a realidade nacional, que, entre outras ações, trabalha apenas e somente para sobreviver. Para Nicolau, e muitos outros, luxo, por exemplo, não passa de uma palavra, ou sonho ou mesmo uma miragem. Nicolau se move em busca da felicidade da rotina. Uma ameaça de demissão ou qualquer outro conflito significa, como se fez neste enredo, quase apocalipse. Nicolau faz parte dos que estão por aí, por exemplo, num ônibus, numa linha qualquer:

Domésticas diaristas cochilando em seus assentos, indiferentes às freadas e solavancos da condução; velhos aposentados que parecem ainda mais velhos, o dinheiro escasso diluindo-se em consultas e farmácias; donas-de-casa suburbanas, pacotes nas mãos e bolhas nos pés, alegres com compras e desesperadas com os preços.

Nicolau - personagem literário, simboliza mais um elemento da engrenagem da roda social - é, foi feito com massa humana. Tem dimensão de gente. Nicolau entra em contradição. É verossímil. E foi bem, muito bem construído. (Se você duvidar, a obra está aí para evidenciar isso e muito mais. Eventuais reclamações podem ser encaminhadas para este Rascunho pelo e-mail rascunho@onda.com.br). Relevante também é Natélia, a esposa de Nicolau. Ela também representa parte das brasileiras reais, dessas que acreditam que tudo pode mudar e ser bem melhor no futuro. Ela parece aquelas que costumam compram Tele-Sena. Ou as que geralmente jogam na Mega-Sena. A sorte dela, no entanto, foi ter encontrado Nicolau e, desde então, poder viver em uma casa só sua, não nos fundos do local onde o pai dela trabalhou até morrer. Natélia enxergava em Nicolau a ponte para seguir rumo a uma vida bem menos ordinária. Mas o cinza se fazia mais intenso que o sonho de cores vivas:

Os dias melhores não tinham chegado, (...), e a mesa capenga no meio da sala lembrando-lhes que a pobreza era a mesma e nada mudara. Natélia tentava impregnar com tonalidades líricas o momento em que encontrou Nicolau, mas ele insistia em tingir aquilo com nuances de realidade real. Natélia, assim como o seu marido, é uma personagem verossímil, tão verossímil como é o enredo deste O Grito dos Mudos. O Grito dos Mudos pode provocar nos leitores e nas leitoras as sensações que envolvem os personagens. E isto já credencia a obra como boa. Boa sim. Afinal, este resenhista, que acima de tudo é um leitor, já se cansou de argumentos e jargões pseudo-sofisticados - da mesma forma que a pseudo-erudição dos pseudo-eruditos e os seus termos e as suas cartilhas não conseguem nem têm coragem de dizer: é bom, simplesmente bom. O Grito dos Mudos comove. E este resenhista não teme que a pseudo-intelectualidade diga: "Mas que sujeitinho superficial e leviano".

O Grito dos Mudos é um bom livro. E isto basta.







Resenha sobre O Grito dos Mudos

Salim Miguel

Saber transmitir com exemplar economia de meios expressionais foi, creio, o que mais me encantou em O Grito dos Mudos. Para mim, tanto quanto aquilo que se conta (ou até mais, em certos casos), importa a maneira pela qual se conta, o clima alcançado, a atmosfera. E isto, sem dúvida, o autor faz bem. Coloca a palavra exata no lugar exato e dela extrai o máximo de força. Jogando com poucas situações embasadas num cotidiano miudinho, ele sabe construir, emociona, prende, faz pensar. E trabalhando com apenas duas personagens (que se complementam com fragmentos de poucas outras incidentais) ele reflete, em termos puramente ficcionais, sobre todo um universo pleno de emoções que nos tocam fundo.







Resenha sobre O Grito dos Mudos

Deonísio da Silva

Deixando de lado o tom épico, a grandeza de cenários e certo caráter heráldico dos personagens,que frequentemente marcaram muitos de nossos grandes romances, O Grito dos Mudos, ao contrário, investe numa narrativa de varejo, contraposta àquelas que dão maior atenção ao atacado. O cenário não vai muito além de um restaurante, onde um certo Nicolau passa a angustiar-se com os efeitos de uma sociedade ´high tech´: é possível que também ali, em seu ambiente de trabalho, as máquinas logo substituam os homens. Diluindo um engano de Nicolau, o narrador seduz e conduz os leitor por vários lugares, outros mirantes e novas idéias.

Conquanto de pequena dimensão em número de páginas, este romance apresenta certas qualidades indispensáveis numa prosa de ficção: enredo, tramas, personagens e diálogos muito bem apoiados num efetivo domínio da linguagem. Os efeitos do desempenho técnico do autor não demoram a mostrar-se: mais narra do que descreve, mais insinua que declara.

Ao invés de um maniqueísmo clássico que limita os impasses à eterna luta do bem contra o mal, o narrador alude às sutis complexidades que caracterizam qualquer recorte do mundo contemporâneo. Os dois Brasis não são mais o do litoral e o dos sertões. Ou um país com homens sem máquina em luta contra um outro, máquinas sem homens. Aliás, não são dois somente. Amostras de vários Brasis agitam-se dentro deste pequeno grande livro. Não falta a emoção que tudo envolve, levando o leitor a olhares e sentimentos feitos em parceria. É um romance leve, envolvente e bem escrito. No variado pomar da literatura brasileira, temos agora uma pêssega.







Resenha sobre O Grito dos Mudos

Tania Carvalhal

Nicolau é simultaneamente um e muitos: uma maioria silenciosa e anônima de trabalhadores que realizam com dignidade sua função por mais simples e humilde que ele seja. Daí a grande força do tema: a sua profunda humanidade. Um tema assim, deve ser tratado com sobriedade narrativa e este livro o faz. Nicolau cresce aos olhos do leitor com seu drama, suas apreensões, seus equívocos e desvios. Enquanto ganha corpo como personagem verossímil, transmite as sensações que o ameaçam. Importante é que isso não resvala para o melodramática nem para o supérfluo. Tudo é conciso e exato nessa narrativa, curta e densa.

O Grito dos Mudos realiza-se pela depuração da linguagem: a narrativa se constrói num discurso que reproduz a interioridade das personagens sem lhes acrescentar ornatos e que cria a atmosfera necessária sem artifícios nem subterfúgios.

Bem escrito e bem realizado, o livro é um romance de densidade dramática e psicológica que, por sua temática, evoca Os Ratos, de Dionélio Machado e, pela criação da atmosfera. O Velho e o Mar, de Hemingway, sem dever-lhes nada.

O leitor sente que está diante de um escritor com domínio da ficção e autor de uma narrativa que, explorando o quase nada cotidiano, prende do início ao fim.







Resenha sobre O Grito dos Mudos

Paulo Rónai

Vinte e quatro horas na vida de um pobretão. Nicolau, de 47 anos, lavador de pratos num restaurante, situaçãozinha a que chegou depois de muitas vicissitudes e que lhe dá uma sensação de estabilidade. Um dia surpreende, na cozinha do restaurante, uma conversa do dono com um vendedor de máquinas de lavar pratos sobre a compra e a colocação de um desses engenhos. Ele e os colegas chegam à conclusão que isso significa o fim do emprego de Nicolau. Desnorteado por essa perspectiva, Nicolau se desespera, não tem coragem de voltar para casa onde a mulher o aguarda assustada e acaba por adormecer sentada numa cadeira. Com raiva e revolta, Nicolau se insurge contra a injustiça, pensa em dizer umas verdades ao patrão, em fazer um escândalo, até em por fogo no restaurante. Por enquanto vai vagando sem rumo , refugia-se num botequim, embriaga-se, deixa-se arrastar por uma prostituta. Chega em casa de madrugada e pouco tempo depois já se encontra no emprego. Daí a pouco é chamado pelo patrão: este lhe explica que é ele quem vai manipular a máquina, destinada a facilitar-lhe o serviço. Tudo não passava de um mal entendido: Nicolau volta a gostar da vida.

Em redor desse acontecimento tênue, o autor, dono de um estilo preciso e altamente expressivo, com humor e ternura, faz reviver toda a vida de dois seres humildes, que exemplifica a existência de milhões. Obra-prima de um escritor que domina a sua arte, conduz a sua história com mão de mestre e sabe prender e comover o leitor.







 

 


Henrique Schneider e Edison Vara lançam "Cidades Contemporâneas"


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