|
CARTA PARA JANINE
Os primeiros dias do ano são dias de não fazer nada, pensa ele. Mas pensa isso enquanto, a contragosto, organiza sua biblioteca. É que precisa fazer isso: a correria do resto do ano não lhe permite este tempo, e o fato é que os livros estão mal cuidados, desorganizados nas estantes, empoeirados, camada fina de pó em alguns deles. E livros precisam ser bem cuidados.
E é então que, no meio das páginas de um livro que possui desde a adolescência, ele encontra a carta.
São três páginas manuscritas, em letra caprichada e cuidadosa, que ele escrevera para uma colega de escola, por quem, tímido absoluto em seus quinze anos, era inteiramente apaixonado. Não havia forças que o fizessem conseguir dizer isso à Janine – este, o nome da menina -; então resolvera contar tal paixão através da carta. Três páginas de declarações rebuscadas e até bem escritas, de coração em chamas e juras de amor para o resto da vida.
Mas nunca enviara a carta, sabe lá por que razão. E o amor para toda a vida acabara um tempinho depois – Janine saíra do colégio, ele começara um namoro, as provas do fim de ano, estas coisas que acontecem.
E agora, esta carta. Esta surpresa e lembrança repentina.
Depois de um tempo, nunca mais soubera de Janine. E também não pensara mais nela. A vida fora acontecendo, simplesmente: ele começara a trabalhar, se formara, casara e descasara, tivera um casal de filhos, os anos passando com certa tranqüilidade.
Mas agora a carta lhe reaviva a curiosidade: onde andará Janine hoje? Como estará? O que a vida havia reservado a ela?
Ele pensa nisso durante certo tempo, enquanto relê as três páginas. Uma saudade que lhe chega – não tanto de Janine, em quem nunca mais pensara de verdade, mas da inocência e da alegria sem rugas daquele tempo. Uma saudade indefinida, sem nome, sem compromisso.
Quando termina de ler, já sabe que não tentará redescobrir Janine pelas redes sociais. A vida certamente aconteceu para ela, também – ela, que nunca soube da paixão confessada nesta carta nunca remetida. E a vida de Janine aconteceu sem ele.
Deixa assim. Que este tempo fique guardado, decide ele, enquanto recoloca a carta no meio das páginas do livro.
Outros Contos
|